Em entrevista , o artista plástico fala da cultura na sociedade contemporânea , que transforma contestação em produto comercial. 

Falando um pouco sobre o cenário artístico plástico brasileiro. O senhor acha que temos inquietação? O que se vê é a manutenção da questão do conceitual que se esgotou em sua própria linguagem.
A pintura, da maneira como ela é feita hoje, não é igual a como era feita há vinte anos. O gestual hoje não é o gestual do Jackson Pollock. O artista hoje é livre. Tudo o que ele quiser ele pode fazer, mas é muito difícil ser livre, na verdade. É muito mais fácil você estar amarrado e querer explodir, atirar e ir contra algo. Há muito mais armas na mão para isso, do que as pessoas te dizerem “faça o que você quer”. Hoje não tem o que ser contra. Você vai ser contra a globalização? Esse discurso já está chato.
O sistema se sofisticou de tal maneira que as pessoas anteriormente lidavam com mecanismos mais simples de contestação. Hoje essa crítica é consumida.
Mas eu pergunto: onde eu peco ou não peco como artista? Por exemplo: hoje, todos que lidam com a arte têm de ter um conhecimento sobre ela. Desde quem entrevista até o curador e o galerista. Logo, todos são meus sócios; é como eu os chamo. Eu sou metade e todos os outros são minhas outras metades. Ou seja, há uma sociedade, hoje, entre o artista e o resto das pessoas que estão no mesmo meio. A única coisa que eu faço é não esconder as coisas. Eu apresentei um trabalho para o meu galerista, parte da série Assim é… se lhe parece, sobre o Primeiro e Terceiro Mundo, feita com decalques, ele olhou e me disse: “A idéia do trabalho é muito boa, mas está muito mal executada”. Como artista eu deveria ter mandado ele não me encher, era o meu trabalho. Mas eu fiquei curioso, na verdade. Ele me disse que o trabalho deveria ser feito numa dimensão maior, num processo que só há na Espanha, que precisaria ser fotografado de novo, passar por um scanner etc. etc. etc. Ou seja, me deu uma aula técnica. Eu perguntei o que ele queria que eu fizesse. Ele solta: “Deixa comigo”. Olha o termo. Eu topei, e deixei com ele. Quando eu vi o resultado em Madri, eu quase caí duro. O trabalho ganhou uma dimensão que não tinha realmente no meu conceito. Ele resolveu tecnicamente o meu trabalho. Assim que eu voltei de Madri, fui para uma palestra no Recife e contei essa história. Qualquer artista se envergonharia de dizer que o seu galerista resolveu o seu trabalho tecnicamente. E eu não. Alguns artistas têm uma visão romântica da arte e do artista que não existe mais hoje. Hoje nós trabalhamos. Eu faço o que eu sei fazer. Eu tenho um produto, um bom produto. Andy Warhol já previu isso quando fez sua produção. Não era só uma crítica ao consumo, ele fez o consumo. Se pegarmos os silks dele da Santa Ceia, vemos que são trabalhos em série como se fosse uma fábrica. O conceito dele não estava nas latas das sopas Campbell, mas na maneira como desenvolveu todo o trabalho. E isso é uma coisa que me fascina. Se hoje eu sou consumido é porque eu sei fazer um produto. Assim, quando alguém me pergunta se eu faço arte, eu respondo “não, eu faço um produto”. A minha burla é ser honesto. Eu burlo com honestidade. Aí eu tento dar o nó porque senão eu não encontro saída.
E qual seria a sua saída?
Exatamente ter consciência do que eu estou fazendo. Em toda entrevista que eu dou, toda vez que falo aos meus alunos, eu digo que arte hoje tem de ser tratada como produto. Coisa que há trinta anos eu não falava.
Mas o senhor acredita que a arte ainda traga um instrumento de transformação da própria sociedade? 
Não. Acho que, hoje, existe um consumo da instituição e da sociedade. Hoje, é uma questão de investimento. E eu tento mostrar tudo isso com o meu trabalho, só que coloco as coisas sempre claras. Eu não gosto de inverter. Eu não quero ser artista. A sociedade me quer como artista. Se você quer me chamar de artista, pode me chamar, mas eu não sou. Eu sou, hoje, gerente da minha fábrica
Fonte; Revista Sesc 78, (trechos: entrevista com Nelson Leirner) 

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