A força do metal e da memória na obra de Carlos Tenius

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Entre os grandes nomes da escultura brasileira do século XX, Carlos Tenius ocupa um lugar de destaque pela monumentalidade de suas obras e pela maneira como conseguiu transformar ferro, aço e cobre em símbolos de identidade cultural. Nascido em Porto Alegre, em 1939, o artista construiu uma trajetória marcada pela pesquisa formal, pela valorização da escultura pública e pelo diálogo entre arte, arquitetura e história. Seu trabalho é reconhecido especialmente no Rio Grande do Sul, onde algumas de suas obras se tornaram verdadeiros cartões-postais urbanos.

Tenius iniciou sua formação artística no começo da década de 1960, estudando com o escultor Fernando Corona. Posteriormente, formou-se em escultura pela Escola de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pouco tempo depois, passou a atuar também como professor da instituição, ensinando escultura e modelagem. Essa ligação entre prática artística e ensino foi fundamental para consolidar sua visão técnica e estética.

Desde cedo, o artista demonstrou interesse por materiais industriais, especialmente o ferro. Diferentemente da escultura tradicional em mármore ou bronze clássico, Carlos Tenius adotou processos modernos de construção. Em vez de apenas esculpir ou modelar, ele soldava chapas metálicas, criava sobreposições e explorava estruturas geométricas. Esse método aproximava sua produção da linguagem industrial e urbana das grandes cidades contemporâneas.

Uma característica importante de sua obra é a influência do construtivismo e do cubismo. Suas esculturas apresentam formas fragmentadas, linhas abertas e um forte senso arquitetônico. Ao mesmo tempo, Tenius mantinha um caráter simbólico em suas criações, buscando representar ideias coletivas, memória histórica e identidade regional. Assim, suas obras unem racionalidade estrutural e emoção simbólica.

A obra mais conhecida de Carlos Tenius é o Monumento aos Açorianos, inaugurado em 1974 em Porto Alegre. A escultura foi criada em homenagem aos casais açorianos que participaram da colonização da capital gaúcha no século XVIII. Com grandes dimensões e estrutura metálica imponente, o monumento tornou-se um dos principais símbolos da cidade.

O Monumento aos Açorianos chama atenção pela sensação de movimento. A composição parece avançar pelo espaço, como uma embarcação enfrentando o vento. Essa dinâmica visual reforça a ideia de viagem, coragem e construção histórica. Além disso, a obra demonstra o domínio técnico do artista sobre o metal, utilizando chapas soldadas para criar uma escultura leve visualmente, apesar do enorme peso físico.

Outro trabalho importante foi o Monumento ao Marechal Castelo Branco, instalado no Parque Moinhos de Vento, em Porto Alegre. A obra possui cerca de 28 metros de altura e foi construída com cobre, aço e ferro. Embora tenha recebido críticas por homenagear uma figura ligada ao período militar brasileiro, o monumento revela a capacidade de Tenius de trabalhar em grande escala e de integrar arte e espaço urbano.

Além dos monumentos públicos, o escultor também produziu peças menores, muitas delas explorando formas abstratas e orgânicas. Obras como “Inseto”, “Pequeno Voo” e “Imagem 827” demonstram seu interesse pelo movimento, pela natureza e pela experimentação visual. Nessas esculturas, o artista utiliza chapas de ferro recortadas e soldadas para criar composições que parecem desafiar o peso do material.

Ao longo da carreira, Carlos Tenius participou de importantes exposições e salões de arte. Em 1962, recebeu medalha de ouro no Salão Paranaense e conquistou o título de melhor escultor nacional no Salão de Curitiba. Também participou de bienais e mostras coletivas que ajudaram a consolidar seu nome entre os principais escultores brasileiros da época.

Sua trajetória artística demonstra como a escultura pode ocupar um papel social e urbano relevante. Diferentemente de obras criadas apenas para galerias, Tenius desenvolveu esculturas pensadas para o espaço público, permitindo que milhares de pessoas tivessem contato cotidiano com a arte. Essa característica faz com que sua produção tenha forte impacto cultural e educativo.

Em 2026, uma exposição em Porto Alegre voltou a homenagear o escultor, destacando especialmente os desenhos preparatórios e estudos relacionados ao Monumento aos Açorianos. A mostra reforçou a importância histórica de sua obra e permitiu que novas gerações conhecessem seu processo criativo.

Carlos Tenius é um exemplo de artista que conseguiu unir técnica, inovação e identidade cultural. Suas esculturas não apenas ocupam espaços urbanos, mas também contam histórias sobre imigração, memória coletiva e transformação social. Ao trabalhar o metal de maneira expressiva e monumental, ele ajudou a construir uma linguagem própria para a escultura brasileira contemporânea, deixando um legado permanente na paisagem cultural do país.