Mário Lopomo: a arte entre a matéria, o movimento e a arquitetura

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Mario Lopomo

Um artista que transforma superfícies em experiências

Na arte contemporânea brasileira, existem artistas que trabalham para que a obra seja observada e existem aqueles que procuram fazer com que ela transforme o próprio espaço ao redor. Mário Sérgio Lopomo pertence a esse segundo grupo. Nascido em São Paulo em 1970, o artista construiu uma trajetória marcada pela aproximação entre arte, design, escultura e arquitetura, desenvolvendo uma produção em que a matéria deixa de ser apenas suporte e passa a assumir protagonismo. Seu trabalho é reconhecido justamente pela capacidade de criar objetos e superfícies que parecem desafiar os limites tradicionais entre pintura, escultura e elemento arquitetônico. 

A trajetória de Lopomo começou a se consolidar ainda nas últimas décadas do século XX. Segundo seu currículo artístico, desde 1989 ele esteve ligado a atividades relacionadas à arte e ao design, passando por experiências em estúdios e ateliês antes de iniciar uma produção autoral. Em 1995, abriu seu primeiro ateliê e, no ano seguinte, começou a desenvolver telas e painéis. A partir do final dos anos 1990, sua pesquisa avançou de maneira cada vez mais intensa para o campo tridimensional, até chegar às esculturas de maior volume que caracterizam parte importante de sua produção. 

É justamente nessa passagem do plano para o espaço que se encontra uma das características mais interessantes de sua linguagem. Lopomo não trata a parede simplesmente como um lugar onde uma obra deve ser pendurada. Para ele, a arquitetura pode fazer parte da própria experiência artística. O resultado são peças que estabelecem uma relação direta com a luz, com a sombra, com as proporções do ambiente e com a percepção de quem observa.

A força geométrica da obra

A escultura apresentada na imagem é um excelente exemplo desse pensamento. Com uma tonalidade metálica que remete ao cobre ou ao bronze envelhecido, a composição é formada por módulos angulares que se alternam e parecem avançar e recuar no espaço. As formas triangulares criam uma espécie de sequência contínua, como se uma estrutura geométrica tivesse sido dobrada, deslocada e colocada em movimento.

O aspecto mais fascinante está justamente nessa sensação de movimento. Embora a peça seja fisicamente estática, seus diferentes planos fazem com que o olhar percorra a composição de uma extremidade à outra. A escultura não possui um único ponto de leitura. Conforme o observador muda de posição, as superfícies recebem a luz de maneira diferente e revelam novas relações entre áreas claras e escuras.

Esse recurso é fundamental para compreender a produção de Lopomo. Em seu próprio texto de apresentação, o artista explica que suas obras são caracterizadas pela junção de diferentes matérias-primas, nas quais forma e cor trabalham em harmonia em busca do que denomina “arte complementar”. Ele também descreve seu processo como resultado de experimentações, testes, acidentes e percepções acumuladas ao longo do cotidiano. 

A ideia de complementaridade é especialmente importante porque permite compreender por que suas obras parecem conversar tão naturalmente com interiores contemporâneos. Elas não são apenas objetos colocados em determinado espaço; são criações pensadas para estabelecer uma relação visual com ele.

Do painel à escultura

Um dos caminhos mais interessantes percorridos por Mário Lopomo foi a transformação gradual dos painéis em estruturas tridimensionais. Registros sobre sua trajetória indicam que, desde 1998, o artista já desenvolvia murais em painéis de madeira aos quais acrescentava diferentes materiais, criando superfícies tridimensionais que posteriormente poderiam ser transformadas em recortes escultóricos. Essa experiência abriu caminho para a exploração cada vez maior do volume. 

Em seu currículo, o artista registra as primeiras esculturas e recortes planos em 1999 e as primeiras esculturas tridimensionais em 2002. O processo demonstra que sua escultura não surgiu como uma ruptura absoluta com a pintura, mas como uma consequência natural de sua pesquisa sobre superfície, matéria e composição. 

Essa característica ajuda a explicar a aparência particular de muitas de suas obras. Mesmo quando uma peça ocupa o espaço como escultura, permanece nela algo do pensamento pictórico: a preocupação com equilíbrio, ritmo, proporção, cor e distribuição das formas. Ao mesmo tempo, o trabalho tridimensional introduz aquilo que a pintura tradicional não pode oferecer da mesma maneira: profundidade, sombra, volume e transformação visual provocada pelo deslocamento do observador.

O Studio Lopomo e a aproximação com o design

Em 1999 teve início o Studio Lopomo, espaço que se consolidou trabalhando justamente no limite entre arte e design. A proposta envolve peças únicas ou de edição limitada e uma produção artesanal que combina técnicas tradicionais das artes visuais com procedimentos relacionados à construção e ao design. Pintura, escultura, desenho, assemblage, monotipia e colagem aparecem entre as linguagens utilizadas pelo estúdio. 

Essa característica multidisciplinar é essencial para compreender a dimensão da produção de Lopomo. Seu trabalho não se restringe a uma única técnica ou a uma aparência repetitiva. Pelo contrário, o próprio artista registra a existência de dezenas de séries entre esculturas e painéis, desenvolvidas continuamente a partir de novas experimentações. 

O resultado é uma produção bastante diversa, na qual diferentes materiais podem assumir aparências inesperadas. Há trabalhos que exploram superfícies orgânicas, outros que valorizam estruturas geométricas, peças de parede, esculturas de mesa e obras destinadas a ocupar áreas maiores. Em todos esses caminhos, permanece uma preocupação comum: fazer com que a matéria dialogue com o espaço.

A escultura como arquitetura

A obra de Mário Lopomo também pode ser compreendida dentro de uma tendência contemporânea que aproximou cada vez mais arte e arquitetura. Nesse contexto, uma escultura não precisa necessariamente estar isolada sobre um pedestal. Ela pode ocupar uma parede, acompanhar uma passagem, interferir na iluminação de um ambiente ou estabelecer uma relação visual com móveis e elementos arquitetônicos.

A Galeria Verbo apresenta Lopomo justamente como um artista cujas obras buscam complementar a arquitetura, com ênfase na estética formal e na produção artesanal. A proposta é transformar os espaços de convivência em lugares nos quais a arte faça parte da experiência cotidiana. 

Na peça mostrada na imagem, essa relação aparece de maneira particularmente clara. A composição alongada e dinâmica parece ter sido criada para ser percebida não apenas frontalmente, mas também através da incidência da luz. Cada dobra e cada plano produz uma sombra própria, fazendo com que a obra se modifique visualmente ao longo do dia.

É uma característica recorrente em outras criações do artista. Obras de séries como Cloth, Casulo, Influxo e Ciclus exploram diferentes relações entre relevo, volume, dobra, movimento e superfície. Em trabalhos como Cloth, por exemplo, a pesquisa envolve superfícies que parecem simultaneamente rígidas e semelhantes a tecidos, enquanto Casulo trabalha a ideia de invólucro, transformação e profundidade. 

A importância da luz

A luz ocupa um papel fundamental nessa linguagem. Uma escultura tridimensional nunca é exatamente igual durante todo o dia. Pela manhã, uma superfície pode receber iluminação direta e revelar sua textura; algumas horas depois, a mudança do ângulo solar pode criar sombras profundas; à noite, a iluminação artificial pode produzir uma leitura completamente diferente.

É justamente essa transformação que dá às obras de Lopomo uma qualidade quase cinematográfica. A peça permanece fisicamente imóvel, mas sua aparência está em constante transformação. O espectador participa dessa mudança simplesmente ao caminhar diante dela.

Na escultura da imagem, isso pode ser percebido nas áreas metálicas que alternam brilho e opacidade. Os planos inclinados recebem a luz em intensidades diferentes, enquanto os espaços entre as formas criam zonas de sombra. A composição ganha, assim, uma espécie de pulsação visual.

Entre arte e experiência

A trajetória de Mário Lopomo demonstra como a arte contemporânea pode encontrar caminhos diferentes daqueles tradicionalmente associados à pintura e à escultura. Sua produção não depende exclusivamente de uma imagem figurativa ou de uma representação reconhecível. Em vez disso, trabalha com a experiência física da forma.

O observador não precisa procurar uma figura escondida ou uma narrativa específica. A própria construção da obra já oferece o conteúdo: o encontro entre matéria e espaço, entre superfície e profundidade, entre peso e movimento aparente.

Esse caráter torna sua produção especialmente adequada ao diálogo com a arquitetura contemporânea. A obra pode funcionar simultaneamente como objeto artístico e como elemento capaz de transformar a atmosfera de determinado ambiente. Não se trata, porém, de reduzir a arte à decoração. A intenção é justamente ampliar a experiência estética, permitindo que a obra participe da vida cotidiana sem perder sua autonomia artística.

Uma linguagem construída pela experimentação

A carreira de Lopomo revela uma trajetória de constante experimentação. Seu currículo registra experiências profissionais desde o final dos anos 1980, a abertura do primeiro ateliê em 1995, o desenvolvimento de murais e painéis na década de 1990 e a posterior consolidação da escultura tridimensional. 

Essa evolução explica a variedade encontrada em sua produção. O artista não parece interessado em permanecer preso a uma única solução formal. Pelo contrário, cada série pode funcionar como uma nova possibilidade de investigar a matéria.

Esse espírito experimental também aparece na maneira como o Studio Lopomo trabalha com peças únicas e edições limitadas, valorizando processos artesanais. A própria proposta do estúdio rejeita a reprodução mecânica e privilegia técnicas manuais e tradicionais das artes visuais. 

O valor de uma obra que ocupa o espaço

Ao observar a escultura apresentada, torna-se evidente que sua força não está apenas na beleza de suas formas. O que chama atenção é a capacidade de fazer com que uma superfície aparentemente rígida adquira sensação de movimento. Os módulos geométricos parecem se suceder como ondas, dobraduras ou fragmentos de uma estrutura que atravessa o espaço.

Essa característica resume uma das contribuições mais interessantes de Mário Lopomo para a arte contemporânea brasileira: a transformação da matéria em experiência espacial.

Sua produção demonstra que uma obra pode ultrapassar os limites da tela e do pedestal para estabelecer uma relação mais profunda com a arquitetura e com o cotidiano. Ao unir pesquisa material, construção manual, geometria, luz e movimento visual, Lopomo cria peças que não apenas ocupam um ambiente, mas interferem na maneira como ele é percebido.

Mário Lopomo construiu, assim, uma linguagem própria baseada na experimentação e na aproximação entre arte e design. Nascida de uma trajetória iniciada ainda no final dos anos 1980 e desenvolvida ao longo de décadas, sua pesquisa encontra na escultura um campo privilegiado para investigar aquilo que existe entre plano e volume, entre objeto e arquitetura, entre permanência e transformação. 

Na obra retratada, essa filosofia aparece com especial clareza: uma sequência de formas angulares, de aparência metálica, que parece avançar pelo espaço em um movimento contínuo. É uma peça que convida o olhar a percorrer seus contornos, acompanhar suas sombras e perceber como a matéria pode adquirir leveza, ritmo e dinamismo. Mais do que um objeto para ser contemplado, é uma presença construída para modificar o espaço ao seu redor — característica que sintetiza com precisão a trajetória artística de Mário Lopomo.

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