Ângelo Cannone: entre a luz do Mediterrâneo e a paisagem brasileira

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Angelo Cannone

Poucos artistas conseguem transformar uma paisagem em uma experiência de memória com tanta naturalidade quanto Ângelo Cannone. Pintor e desenhista italiano radicado no Brasil, Cannone construiu uma trajetória marcada pela observação da natureza, pelo interesse pelas cidades, pelo mar e pela luz, criando uma produção que atravessa diferentes territórios sem perder sua identidade. Nascido em Abruzzo, na Itália, em 30 de dezembro de 1899, e falecido no Rio de Janeiro em 30 de setembro de 1992, o artista viveu uma longa trajetória entre a formação artística italiana e a experiência brasileira, deixando uma produção que hoje continua despertando interesse entre colecionadores e admiradores da pintura figurativa. 

A história de Cannone é, antes de tudo, uma história de deslocamento. Sua formação aconteceu na Itália, em um ambiente profundamente ligado à tradição artística europeia. Estudou no Instituto de Belas Artes de Nápoles com Paolo Vetri, artista e professor que exerceu influência importante em sua formação. Cannone também viveu durante quatro anos em Roma, período sustentado por uma pensão conquistada em um concurso realizado em Nápoles. Essas experiências ajudaram a formar seu olhar e deram ao artista contato direto com uma tradição pictórica na qual o estudo da paisagem, da figura e da luz ocupava papel essencial. 

Antes de chegar ao Brasil, Cannone já havia construído uma carreira artística na Itália. Suas exposições lhe renderam premiações, e ele também atuou como professor de desenho. Há registros de que tenha auxiliado Paolo Vetri na pintura do teto do Salão Mor da Universidade de Nápoles, experiência que revela sua ligação com uma prática artística de caráter tradicional e com o domínio do desenho e da pintura. 

No final de 1947, a trajetória do artista tomou um novo rumo. Cannone deixou a Itália e veio para o Brasil. Inicialmente passou por São Paulo, mas foi no Rio de Janeiro que encontrou seu lugar definitivo. A cidade se tornaria não apenas seu endereço, mas uma das grandes referências de sua produção. A paisagem carioca, com suas montanhas, águas, construções e luminosidade particular, ofereceu ao pintor um universo visual completamente diferente daquele que havia conhecido na Europa. 

É justamente nesse encontro entre mundos que está uma das características mais fascinantes de sua obra. Cannone trouxe consigo uma formação europeia, mas passou a olhar para o Brasil com olhos de artista. O resultado não é simplesmente uma pintura italiana realizada em território brasileiro. Existe uma adaptação do olhar à nova paisagem, uma espécie de diálogo entre memória e descoberta.

Suas marinhas ocupam lugar de destaque nesse percurso. O mar aparece não apenas como cenário, mas como protagonista. Barcos, portos, pescadores, margens e horizontes tornam-se elementos através dos quais o artista explora a relação entre luz, movimento e atmosfera. Registros de sua produção mostram obras intituladas “Barcos”, “Marinha”, “Marinha com Personagens” e “Porticciolo”, confirmando a importância desse universo marítimo em sua trajetória. 

Existe algo particularmente cinematográfico em uma paisagem marítima. O horizonte divide o espaço entre céu e água; as embarcações estabelecem pontos de movimento; a luz muda constantemente a aparência do cenário. Para um pintor interessado na atmosfera, o mar oferece possibilidades praticamente infinitas. Cannone parece ter compreendido essa riqueza, utilizando a paisagem marítima como espaço de investigação e contemplação.

Sua produção foi descrita como especialmente ligada às “transparências”, característica observada em suas marinhas e paisagens. Essa qualidade ajuda a entender o encanto de sua pintura. A transparência, nesse caso, não significa apenas representar água ou reflexos, mas construir uma sensação de profundidade e luminosidade. O olhar percebe que há diferentes planos dentro da paisagem, e a pintura parece criar uma passagem gradual entre aquilo que está próximo e aquilo que desaparece ao longe. 

Outro aspecto importante é a relação do artista com a paisagem urbana. Cannone não ficou restrito às cenas naturais. Paris, Rio de Janeiro, Nápoles e outras paisagens aparecem em sua produção, revelando um artista interessado também no espaço construído e na maneira como a presença humana modifica a paisagem. Há registros de obras intituladas “Paris” e “Rio de Janeiro”, além de uma pintura de 1985 representando um vilarejo com o Corcovado ao fundo. 

Essa obra do vilarejo com o Corcovado é particularmente significativa para compreender sua relação com o Brasil. O famoso perfil da montanha carioca aparece como elemento de identificação da cidade, mas não necessariamente como simples cartão-postal. Ao colocar o Corcovado em uma paisagem de caráter mais cotidiano, Cannone aproxima o monumento natural da vida ao seu redor. O Rio aparece como uma cidade vivida, observada a partir de seus espaços e de suas atmosferas.

A paisagem, portanto, não é apenas uma reprodução geográfica. Ela é uma experiência. É possível imaginar o artista diante de uma cena, observando as mudanças da luz, a movimentação das águas, o desenho das montanhas e a presença das construções, procurando encontrar o momento em que todos esses elementos se equilibram. A pintura nasce desse instante.

Essa relação íntima entre o artista e o ato de pintar aparece também em uma frase atribuída a Cannone: “Quando estou no cavalete, estou como num sonho: não vejo nada nem ninguém à minha volta.”  A declaração revela uma concepção muito particular da pintura. O ateliê torna-se um espaço de concentração absoluta, onde o mundo exterior desaparece temporariamente e a atenção se volta completamente para a obra.

Essa ideia ajuda a compreender por que suas paisagens podem transmitir uma sensação de silêncio mesmo quando apresentam barcos, pessoas ou cidades. O artista não parece interessado apenas no acontecimento, mas no estado de espírito provocado pelo lugar. A paisagem torna-se uma espécie de estado emocional.

Em 1972, Cannone realizou uma de suas obras mais emblemáticas: um retrato em tamanho natural do Papa Pio X, atualmente localizado na Igreja dos Italianos, no Rio de Janeiro. O trabalho demonstra que, apesar de sua forte associação com paisagens e marinhas, sua produção não se limitava a esse gênero. A capacidade de representar uma figura humana em grande escala revela outra dimensão de sua formação artística. 

A variedade de temas ajuda a perceber a amplitude de sua trajetória. Cannone poderia voltar-se para o mar, para uma cidade, para uma paisagem rural, para uma figura humana ou para uma cena cotidiana. O que permanece constante é a atenção à atmosfera. É como se o tema fosse apenas o ponto de partida para uma investigação sobre luz, espaço e sentimento.

No Brasil, sua produção encontrou espaço em exposições e galerias. Entre os registros estão mostras no Rio de Janeiro e em São Paulo, incluindo uma exposição de 1988 dedicada aos seus 70 anos de pintura, realizada no Centro Cultural Palace. Também participou de exposições coletivas ligadas à pintura brasileira dos séculos XIX e XX. Depois de sua morte, sua obra continuou sendo apresentada em exposições como “Memórias: 100 obras de 1940 a 1980”, em 1993, e “Da Marinha à Natureza Morta”, em Campinas, em 1995. 

A permanência de suas obras no circuito de galerias e leilões demonstra que seu trabalho continua despertando interesse. Há registros de pinturas de marinhas, paisagens, barcos, cenas urbanas e figuras humanas em diferentes acervos e catálogos. Entre elas encontram-se trabalhos como “Paris”, “Barcos”, “Marinha”, “Rio de Janeiro” e “O grande dia”. 

Para o colecionador, uma obra de Cannone representa também uma pequena parte da história do encontro entre a tradição artística italiana e a cultura visual brasileira. O artista carregava consigo uma formação construída na Europa, mas encontrou no Brasil uma paisagem que passou a integrar profundamente sua produção. Seu trabalho registra, assim, uma espécie de dupla identidade cultural.

Há uma beleza especial nessa condição de artista estrangeiro que se torna profundamente ligado ao lugar onde escolheu viver. Cannone não abandonou sua origem italiana, mas também não permaneceu preso a ela. O Rio de Janeiro tornou-se parte de sua linguagem. As montanhas, o mar, os barcos e a luminosidade brasileira passaram a ocupar o mesmo universo artístico que antes incluía as paisagens europeias.

Essa fusão é talvez uma das maiores riquezas de sua obra. Ao olhar uma pintura de Cannone, podemos imaginar tanto a tradição das paisagens italianas quanto a luminosidade particular das cenas brasileiras. Existe um diálogo entre o Mediterrâneo e o Atlântico, entre a memória de uma terra de origem e a descoberta de uma nova pátria.

A arte de Ângelo Cannone permanece interessante justamente porque não depende de uma única imagem ou de um único tema. Seu legado está na maneira de olhar. O mar, as cidades e as paisagens são importantes, mas tornam-se verdadeiramente significativos quando passam pela sensibilidade do artista.

Sua trajetória também mostra que a arte pode acompanhar uma pessoa durante toda a vida. Cannone começou sua formação ainda na Itália, atravessou o oceano, construiu uma nova vida no Brasil e continuou pintando por décadas. Sua produção é, portanto, também um testemunho de permanência, dedicação e paixão pelo ofício.

Ao observar uma de suas marinhas, é possível perceber que o interesse não está apenas nos barcos ou no horizonte. Está na atmosfera que envolve tudo. Ao contemplar uma paisagem carioca, não vemos apenas montanhas e construções, mas uma cidade transformada pela luz. Ao encontrar uma cena europeia, percebemos a memória de um artista que carregou consigo suas origens.

Ângelo Cannone foi, acima de tudo, um pintor da experiência visual. Sua obra transforma lugares em lembranças e paisagens em sentimentos. Entre a Itália onde nasceu e o Brasil onde construiu sua vida, desenvolveu uma produção que encontrou na luz, no mar e na paisagem seus grandes protagonistas.

Hoje, sua obra pode ser revisitada como um capítulo especial da pintura figurativa do século XX. Não apenas pela quantidade de trabalhos ou pela longevidade de sua carreira, mas pela capacidade de fazer com que uma paisagem aparentemente simples se transforme em uma experiência contemplativa.

E talvez seja justamente aí que esteja o encanto de Cannone: ele não pintava apenas aquilo que estava diante dos olhos, mas aquilo que aquele lugar significava para ele. Suas marinhas, cidades e paisagens permanecem como registros de um olhar que atravessou continentes e encontrou no Brasil uma nova maneira de enxergar o mundo. A cada tela, o artista parece nos convidar a desacelerar, observar a luz, acompanhar o movimento da água e perceber que uma paisagem pode ser muito mais do que um cenário: pode ser memória, emoção e história.

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Angelo Cannone