Samson Flexor: entre a geometria, a cor e a liberdade

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Samson Flexor

Pioneiro do abstracionismo no Brasil, Samson Flexor construiu uma trajetória marcada por transformações profundas. Da figuração de influência cubista à abstração geométrica e, posteriormente, à pintura lírica, sua obra revela um artista inquieto, interessado em ultrapassar os limites da representação e encontrar novas formas de expressão.

Poucos artistas conseguiram participar de maneira tão intensa das transformações da arte brasileira do século XX quanto Samson Flexor. Nascido em 1907, em Soroca, na então região da Moldávia, e falecido em São Paulo, em 1971, Flexor foi pintor, desenhista, muralista, professor e uma figura decisiva para a consolidação da abstração no país. Sua trajetória atravessou diferentes culturas, escolas e movimentos, fazendo de sua obra um verdadeiro território de experimentação.

O próprio percurso de Flexor já parece anunciar sua vocação para a mudança. Ainda jovem, estudou na Bélgica e na França, onde teve contato com importantes centros de formação artística e com as discussões da vanguarda europeia. Frequentou instituições e academias em Bruxelas e Paris, estudou História da Arte na Sorbonne e aproximou-se de diferentes tendências modernas. Em 1929, participou da fundação do Salon des Surindépendants, em Paris, espaço que reunia artistas interessados em alternativas aos modelos tradicionais de seleção e exposição. 

Sua produção inicial esteve ligada à figuração e recebeu influências do cubismo. Entretanto, Flexor nunca pareceu satisfeito em permanecer dentro de uma única linguagem. Ao longo dos anos, sua pintura passou por mudanças significativas, incorporando questões relacionadas à geometria, à cor, à luz, ao movimento e, posteriormente, ao gesto.

Da Europa ao Brasil

A Segunda Guerra Mundial marcou profundamente a vida de Flexor. Durante o conflito, ele esteve ligado à Resistência Francesa e precisou deixar Paris diante da ocupação nazista. Depois da guerra, sua relação com o Brasil se tornou definitiva. Em 1946, realizou sua primeira viagem ao país e, posteriormente, estabeleceu-se em São Paulo com a família. A cidade, naquele momento, vivia um processo acelerado de industrialização e modernização, cenário que teria grande importância para sua produção. 

São Paulo ofereceu a Flexor um ambiente diferente daquele que havia conhecido na Europa. A cidade crescia rapidamente e começava a construir uma nova identidade cultural. A criação das Bienais Internacionais de São Paulo também ampliava o contato do público brasileiro com experiências artísticas internacionais.

Foi nesse contexto que Flexor passou a se dedicar de maneira mais intensa à abstração.

Segundo o Museu de Arte Moderna de São Paulo, o artista, radicado definitivamente na capital paulista a partir de 1948, transitou da linguagem cubista para a abstração geométrica, caracterizada pelo rigor construtivo, pelos planos dinâmicos e pelas tensões cromáticas. Mais tarde, sua produção caminharia em direção a uma abstração lírica, na qual as formas se tornariam mais orgânicas e o gesto ganharia maior liberdade. 

O Atelier-Abstração

Um dos capítulos mais importantes dessa história aconteceu em 1951, quando Flexor fundou o Atelier-Abstração em São Paulo.

Mais do que um simples espaço de trabalho, o atelier tornou-se um ambiente de formação, discussão e divulgação da arte abstrata. O espaço funcionou na própria casa de Flexor, projetada pelo arquiteto Rino Levi, e reuniu artistas interessados nas possibilidades da linguagem não figurativa. 

O Atelier-Abstração teve papel pioneiro na divulgação da abstração geométrica no Brasil. Entre os artistas relacionados ao ambiente estavam nomes como Wega Nery, Norberto Nicola e Alberto Teixeira. O próprio MASP reconhece o Atelier-Abstração como um dos grupos pioneiros do abstracionismo geométrico brasileiro. 

Essa dimensão pedagógica é fundamental para compreender a importância de Flexor. Seu legado não está apenas nas telas que produziu, mas também nas ideias que ajudou a disseminar e nos artistas que tiveram contato com suas pesquisas.

A geometria como movimento

Na fase geométrica, Flexor explorou formas sobrepostas, planos, linhas e campos cromáticos. Mas sua geometria não deve ser entendida apenas como uma organização fria e matemática.

Em Formas superpostas, de 1951, por exemplo, figuras angulares e triangulares são organizadas de maneira assimétrica, produzindo uma sensação simultânea de equilíbrio e movimento. O Acervo do Estado de São Paulo destaca justamente essa harmonia construída a partir da assimetria. 

Essa característica é importante porque revela uma questão central da obra de Flexor: a geometria não elimina a emoção.

As formas podem ser rigorosamente organizadas, mas continuam carregadas de tensão, ritmo e sensibilidade. As cores estabelecem relações entre si, enquanto as linhas conduzem o olhar. A tela deixa de representar uma paisagem ou um objeto específico e passa a construir uma realidade própria.

É como se o artista dissesse que uma pintura não precisa representar o mundo exterior para falar sobre ele.

Da ordem à liberdade

A partir do final dos anos 1950, sua linguagem começou novamente a se transformar. A geometria rígida perdeu espaço para formas mais livres, orgânicas e gestuais. O artista passou a explorar uma pintura mais espontânea, aproximando-se da chamada abstração lírica.

Essa transformação mostra que Flexor nunca enxergou a abstração como uma fórmula definitiva. Para ele, a arte era uma investigação contínua.

O Acervo Digital da Unesp/MAC registra justamente essa trajetória: entre 1951 e 1957, Flexor dedicou-se à abstração geométrica, aproximando-se posteriormente de questões ligadas à Op Art; a partir de 1958, sua pintura tornou-se mais gestual e livre, e mais tarde o artista voltou a incorporar elementos figurativos. 

Essa capacidade de mudar é talvez uma das características mais fascinantes de sua carreira.

Cor, luz e emoção

A cor ocupa um papel essencial na obra de Flexor. Mesmo quando trabalha com formas geométricas, ela não funciona simplesmente como preenchimento. É elemento estrutural, capaz de criar profundidade, ritmo, contraste e movimento.

O MASP conserva Composição em cinza e rosa, de 1969, uma pintura a óleo sobre tela que demonstra a permanência do interesse do artista pelas relações cromáticas mesmo em sua fase mais madura. 

O contraste entre cinzas e rosas demonstra como Flexor podia construir atmosferas utilizando uma paleta aparentemente restrita. Em suas pinturas, a cor frequentemente parece possuir uma dimensão quase musical.

Essa relação talvez não seja acidental. Flexor também tinha interesse pela música e buscava estabelecer relações entre as artes plásticas e a experiência musical. A pintura podia ser compreendida como ritmo, intervalo, repetição, pausa e intensidade. 

Um legado que permanece

Samson Flexor morreu em São Paulo em 1971, aos 64 anos, mas sua contribuição para a arte brasileira permanece significativa.

Sua importância não está somente em ter sido um dos primeiros grandes defensores da abstração no país. Está também em ter compreendido a arte como um campo de liberdade. Flexor não ficou preso a uma única escola. Passou pela figuração, pelo cubismo, pela abstração geométrica, pela pintura lírica e voltou a explorar aspectos figurativos.

Essa trajetória torna sua obra especialmente atual.

Em um momento em que a arte brasileira buscava novas maneiras de dialogar com as transformações do mundo moderno, Flexor ajudou a abrir uma porta. Através dela, artistas puderam perceber que uma pintura poderia existir sem depender da representação literal de uma pessoa, de uma paisagem ou de um objeto.

Sua tela poderia ser movimento. Poderia ser silêncio. Poderia ser cor.

Poderia ser pensamento.

Hoje, observar uma obra de Samson Flexor é acompanhar um artista em permanente transformação. É perceber que por trás de uma forma geométrica existe uma emoção; por trás de uma cor existe uma escolha; por trás de uma composição existe um pensamento.

Flexor transformou a abstração em investigação. E talvez seja justamente essa inquietação — essa recusa em permanecer parado — que faça sua obra continuar viva.

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