Ione Saldanha: a cidade inventada, a força da cor e a pintura que ganhou espaço

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Ione Saldanha

Uma artista que expandiu os limites da pintura

Ione Saldanha ocupa um lugar singular na história da arte brasileira do século XX. Nascida em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 1919, e falecida no Rio de Janeiro em 2001, a artista desenvolveu, ao longo de quase seis décadas de produção, uma trajetória marcada por transformações profundas, mas também por uma coerência interna impressionante. Sua obra percorreu a pintura figurativa, a abstração e, posteriormente, experiências em que a pintura deixou de estar restrita à superfície plana da tela para ocupar objetos e estruturas tridimensionais. O Museu de Arte de São Paulo, o MASP, destaca justamente esse percurso ao apresentar sua produção como uma investigação contínua sobre a cidade, a arquitetura, a cor e a expansão do campo pictórico.

A trajetória de Ione Saldanha chama atenção porque sua transformação artística não aconteceu por meio de uma ruptura completa com o que havia produzido anteriormente. Ao contrário, existe uma espécie de continuidade entre seus primeiros casarios, suas paisagens urbanas, suas composições abstratas e os célebres Bambus e Ripas. A cidade, a arquitetura, a verticalidade e a organização dos espaços permanecem como questões recorrentes, ainda que cada período apresente soluções formais diferentes.

Essa característica permite compreender sua produção não simplesmente como uma sucessão de estilos, mas como uma pesquisa permanente sobre o que pode ser uma pintura. Em determinado momento, a artista percebe que a tela já não era suficiente para aquilo que pretendia realizar. A partir do final da década de 1960, passou a utilizar ripas, bambus, bobinas e outros suportes, fazendo com que a pintura adquirisse presença física e espacial.

Dos casarios à abstração

No início de sua carreira, durante as décadas de 1940 e 1950, Ione Saldanha produziu obras figurativas, incluindo cenas cotidianas, retratos e representações de casarios. O MASP observa que, progressivamente, a artista passou a geometrizar cidades e arquiteturas, transformando elementos reconhecíveis em estruturas cada vez mais próximas da abstração. Nessa passagem, verticalidade e horizontalidade assumiram uma função estrutural na composição.

Essa transformação é fundamental para compreender sua linguagem. A artista não abandonou simplesmente a realidade para entrar no universo abstrato. Ela partiu da realidade e foi reduzindo, reorganizando e sintetizando seus elementos.

Uma casa pode deixar de ser representada como uma casa específica. Suas paredes podem transformar-se em planos; janelas podem converter-se em intervalos geométricos; ruas podem tornar-se linhas; edifícios podem ser reduzidos a estruturas verticais. Aos poucos, aquilo que antes era reconhecível passa a funcionar principalmente como forma, ritmo e cor.

A Fundação Iberê Camargo descreve esse processo de maneira semelhante ao analisar sua trajetória: as fachadas dos anos 1950 foram se transformando em notações geométricas, enquanto a pintura adquiria maior liberdade no jogo entre formas e cores.

Esse movimento demonstra uma das características mais interessantes da obra de Ione Saldanha: sua abstração possui raízes concretas. Existe uma memória do mundo visível por trás da construção geométrica. Mesmo quando a figura desaparece, permanecem determinadas relações espaciais que remetem à arquitetura, às cidades e à experiência de observar o ambiente.

A cidade como invenção

O título da retrospectiva realizada pelo MASP entre dezembro de 2021 e março de 2022, Ione Saldanha: A Cidade Inventada, oferece uma chave importante para interpretar sua produção. A exposição apresentou a cidade não apenas como tema, mas como uma questão que atravessa diferentes momentos da obra.

A cidade de Ione Saldanha não precisa ser identificada com uma cidade específica. Ela é construída pela memória, pela geometria, pelas relações entre planos e pela experiência cotidiana. Seus casarios iniciais registram uma realidade reconhecível, mas, com o passar do tempo, a artista transforma essa realidade em uma espécie de estrutura poética.

Esse processo de invenção é particularmente significativo porque aproxima arquitetura e pintura. A arquitetura organiza espaços para serem habitados; a pintura de Saldanha organiza espaços para serem percebidos. Em ambos os casos, existem relações entre verticalidade, horizontalidade, ritmo, intervalo e proporção.

A artista, entretanto, não transforma a arquitetura em um exercício puramente racional. A cor e a marca do gesto permanecem fundamentais. O MASP destaca que, mesmo quando suas construções se tornam progressivamente abstratas, elas conservam uma qualidade fluida, delicada e orgânica.

Assim, sua geometria não deve ser entendida como algo rígido ou frio. Há nela uma dimensão sensível, construída pela mão da artista.

A cor como matéria de pensamento

A cor talvez seja uma das questões mais importantes de toda a produção de Ione Saldanha. Não se trata simplesmente de escolher tonalidades agradáveis ou de criar efeitos decorativos. Para a artista, a cor possuía uma força própria.

Em registros sobre sua produção, aparece uma declaração particularmente reveladora: “A cor é o que me faz pintar”. Em entrevista publicada pelo jornal O Globo em 1977, Saldanha também afirmou que tinha paixão pela cor e que percebia nela uma vibração capaz de ultrapassar o som e a palavra.

Essa relação explica por que suas obras podem ser observadas não apenas pela composição geométrica, mas pela intensidade das relações cromáticas. A cor participa da estrutura. Ela cria ritmo, equilíbrio, tensão e movimento.

Em uma pintura de Saldanha, uma faixa vertical pode funcionar simultaneamente como estrutura arquitetônica e como campo cromático. Uma área horizontal pode estabelecer uma pausa visual. Uma determinada cor pode avançar sobre outra ou recuar diante dela. O espectador não observa somente formas coloridas; percebe relações entre diferentes forças visuais.

A cor, portanto, não ilustra a composição. Ela constrói a composição.

O corpo da pintura

A grande transformação de Ione Saldanha acontece quando a artista começa a abandonar progressivamente a superfície convencional da tela.

No final da década de 1960, ela passou a trabalhar sobre ripas, bambus e bobinas de madeira. Esse movimento ampliou radicalmente as possibilidades de sua pintura. O MASP interpreta esse processo como uma passagem para a pintura em um campo expandido ou ampliado.

A mudança parece simples, mas possui consequências profundas.

Quando a artista pinta sobre uma ripa, a pintura deixa de ser apenas uma imagem retangular presa à parede. O próprio suporte possui volume, espessura, textura e presença física. Quando pinta um bambu, ela não elimina as características naturais do material. Pelo contrário, trabalha com elas.

O objeto passa a fazer parte da linguagem pictórica.

Essa é uma das grandes contribuições de Ione Saldanha para a história da arte brasileira: sua capacidade de demonstrar que a pintura pode continuar sendo pintura mesmo quando abandona a tela tradicional.

Os Bambus e a verticalidade

Os Bambus tornaram-se as obras mais conhecidas de Ione Saldanha e representam uma das experiências mais radicais de sua trajetória. A Biennale di Venezia descreve essas obras como uma maneira vigorosa de ampliar os limites entre linguagens artísticas, dando corpo e vitalidade à pintura por meio da utilização do próprio bambu como suporte.

A escolha do bambu também estabelece uma relação direta com a natureza. A matéria não nasce no ateliê. Ela vem do mundo natural e chega à artista com sua forma, sua superfície e suas irregularidades próprias.

Segundo registros sobre seu processo, Saldanha escolhia cuidadosamente os bambus, deixava-os secar durante longo período, preparava a superfície e aplicava várias camadas de tinta branca antes da pintura propriamente dita. A etapa final da pintura era realizada de maneira concentrada, depois de muitos estudos prévios.

Essa informação é importante porque desmonta uma possível impressão de espontaneidade absoluta. Embora suas obras possam transmitir liberdade e leveza, existe um processo rigoroso por trás delas.

O bambu parece simples, mas sua transformação em obra envolve seleção, espera, preparação, lixamento, aplicação de camadas e planejamento cromático.

O movimento provocado pelo suporte

A verticalidade dos Bambus é um elemento decisivo. Ao serem colocadas lado a lado ou suspensas em conjuntos, as peças estabelecem relações com o espaço ao redor.

A Biennale di Venezia observa que os Bambus, quando suspensos, podem mover-se sutilmente, aproximando-se da lógica dos móbiles e criando uma experiência dinâmica da cor. O observador não precisa permanecer em uma única posição: ao circular ao redor da obra, percebe diferentes relações entre superfície, cor, espaço e movimento.

Essa característica modifica profundamente a experiência tradicional da pintura.

Diante de uma tela, o espectador normalmente permanece diante de uma superfície frontal. Diante dos Bambus, a posição do observador passa a ser parte da experiência. O espaço participa da obra.

A pintura deixa de ser apenas algo que se olha e passa a ser algo que ocupa um ambiente.

Entre pintura e escultura

A produção de Ione Saldanha também desafia classificações rígidas. Seus Bambus podem ser chamados de pinturas porque a cor e o gesto pictórico são essenciais. Ao mesmo tempo, possuem características escultóricas porque são objetos tridimensionais.

O MASP descreve essas obras como esculturas eretas que evocam elementos da cultura popular e vernacular brasileira e que, quando reunidas em conjuntos, adquirem uma qualidade instalativa.

A Biennale di Venezia, por sua vez, enfatiza que a organicidade do bambu reivindica suas próprias propriedades escultóricas, fazendo com que a pintura adquira corpo.

Essa indefinição é justamente parte da força da obra. Ione Saldanha não precisava escolher entre pintura e escultura. Seu trabalho podia existir entre essas categorias.

O resultado é uma linguagem que se aproxima das grandes transformações da arte moderna e contemporânea, nas quais artistas passaram a questionar os limites tradicionais dos meios.

Uma artista independente dos movimentos

Apesar das afinidades que podem ser percebidas entre sua produção e a de artistas como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape, o MASP ressalta que Ione Saldanha nunca se associou formalmente a um grupo ou movimento artístico.

Esse aspecto é significativo. A arte brasileira das décadas de 1950, 1960 e 1970 foi marcada por grupos, manifestos e movimentos que ajudaram a definir diferentes correntes da produção nacional. Ione Saldanha desenvolveu sua pesquisa de maneira mais independente.

Sua produção, entretanto, dialogava com questões centrais daquele período: abstração, geometria, cor, participação espacial e expansão dos suportes.

O fato de não estar vinculada a um movimento específico pode ter contribuído para a singularidade de sua trajetória. Ela pôde desenvolver sua pesquisa sem precisar seguir rigidamente um programa coletivo.

Uma linguagem rigorosa e poética

A obra de Ione Saldanha reúne duas características que poderiam parecer opostas: rigor e poesia.

O rigor está na construção das formas, na organização das cores, na preparação dos materiais e na repetição de determinados princípios compositivos. A poesia está na maneira como esses elementos são transformados em experiências visuais leves, sensíveis e abertas.

O Museu de Arte Moderna de São Paulo destaca justamente o rigor e a coerência de sua produção, observando a passagem da figuração à abstração e, posteriormente, aos suportes tridimensionais. A instituição também identifica na obra a presença da verticalidade e da síntese de elementos arquitetônicos e urbanos populares.

Essa combinação ajuda a explicar por que suas obras podem parecer simples à primeira vista e, ao mesmo tempo, revelar grande complexidade quando observadas com atenção.

Uma composição de poucos elementos pode depender de relações cromáticas extremamente precisas. Um bambu aparentemente simples pode resultar de um processo longo. Uma sequência de ripas pode produzir uma experiência espacial complexa.

Reconhecimento renovado

A obra de Ione Saldanha passou por um processo de redescoberta e valorização institucional nas últimas décadas. A retrospectiva Ione Saldanha: A Cidade Inventada, realizada pelo MASP entre 2021 e 2022, contribuiu para apresentar sua trajetória a novas gerações e enfatizar sua posição singular na arte brasileira.

Em 2024, sua obra alcançou também a Biennale Arte de Veneza, em uma apresentação que destacou justamente os Bambus e sua contribuição para a expansão das possibilidades da pintura. Foi a primeira vez que seu trabalho esteve presente na Bienal de Veneza.

Esse reconhecimento internacional reforça a dimensão de sua pesquisa. Ione Saldanha não foi apenas uma artista brasileira interessada em experiências abstratas. Sua produção apresenta questões que dialogam com debates amplos sobre pintura, escultura, espaço, materialidade e cor.

O legado de Ione Saldanha

A importância de Ione Saldanha está na maneira como ela transformou a pintura sem abandonar aquilo que fazia da pintura uma linguagem tão poderosa: a cor, o gesto e a relação entre formas.

Sua trajetória começou com o mundo visível. Vieram os casarios, os retratos e as cenas cotidianas. Depois, a realidade foi sendo sintetizada. As fachadas transformaram-se em estruturas geométricas; as cidades passaram a existir como construções abstratas; e, finalmente, a própria tela deixou de ser suficiente.

Vieram as ripas, as bobinas e os bambus.

Essa trajetória demonstra que sua pesquisa não consistia simplesmente em procurar novos materiais. Tratava-se de questionar continuamente o próprio espaço da pintura.

Os Bambus representam talvez a síntese mais clara desse pensamento. São naturais e artificiais ao mesmo tempo; são pintura e escultura; são individuais e coletivos quando instalados em conjunto; são verticais, mas criam movimento; possuem uma forma reconhecível, mas tornam-se campos abstratos de cor.

A obra de Ione Saldanha permanece, portanto, como uma investigação sobre a liberdade da pintura. Sua produção mostra que a tela pode ser abandonada sem que a pintura desapareça, que a geometria pode ser sensível e que a cor pode funcionar como estrutura, emoção e pensamento.

Ao transformar materiais simples em construções visuais complexas, Ione Saldanha ampliou o território da arte brasileira. Sua cidade inventada não é apenas uma representação urbana: é um espaço mental construído por linhas, cores, ritmos, verticalidades e gestos. É uma cidade que não precisa existir fisicamente para ser reconhecida pela experiência do olhar.

É justamente nessa capacidade de transformar o cotidiano em linguagem e o suporte em espaço que reside a força de sua obra. Ione Saldanha deixou uma produção que continua a desafiar classificações e a convidar o espectador a olhar a pintura de outra maneira: não apenas como uma superfície onde uma imagem é colocada, mas como uma experiência que pode ocupar, transformar e reinventar o próprio espaço.

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