JOTA BARROS: A VOZ DO CORDEL GRAVADA NA MADEIRA

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Jota Barros

Entre versos, cantorias e xilogravuras, o artista pernambucano transformou a cultura popular nordestina em memória, imagem e resistência

Poucos artistas conseguem reunir, em uma mesma trajetória, a força da palavra, a expressividade da imagem e a tradição oral de um povo. João Antônio de Barros, conhecido como Jota Barros, foi um desses nomes. Pernambucano, nascido em 1935 e falecido em 2009, dedicou grande parte de sua vida à poesia de cordel, à xilogravura, à cantoria e ao repente. Sua produção nasceu profundamente ligada à cultura popular nordestina e encontrou, posteriormente, em São Paulo, um novo território para continuar contando histórias. 

A trajetória de Jota Barros é especialmente significativa porque representa uma arte construída fora dos grandes circuitos tradicionais. Seu trabalho surgiu da experiência cotidiana, da oralidade, da observação das pessoas e das histórias que circulavam pelas feiras, ruas e comunidades. Em suas mãos, a madeira, a tinta e o papel tornaram-se instrumentos para preservar personagens, acontecimentos, crenças e conflitos que fazem parte do imaginário brasileiro.

Do Nordeste para a madeira

Natural de Glória do Goitá, em Pernambuco, Jota Barros cresceu em um ambiente ligado à cultura rural e popular. A tradição nordestina da poesia cantada, das histórias transmitidas oralmente e dos folhetos populares encontraria em sua produção uma forma de permanência.

Antes de ser reconhecido principalmente como xilógrafo e poeta, Jota Barros exerceu também a profissão de marceneiro. A familiaridade com a madeira certamente dialogava de maneira natural com a prática da xilogravura, técnica em que a imagem é criada sobre uma matriz de madeira, posteriormente entintada e impressa sobre o papel. Registros acadêmicos sobre sua trajetória apontam que ele conciliou o trabalho de marceneiro com a produção poética e artística. 

Essa relação é simbólica: o mesmo material utilizado no trabalho cotidiano podia transformar-se em matriz artística. A madeira deixava de ser apenas matéria-prima e passava a carregar personagens, histórias e ideias.

O poeta que também era repentista

Jota Barros não pode ser compreendido apenas como xilógrafo. Sua obra está diretamente ligada à tradição da literatura de cordel e da poesia oral. Ele também foi repentista e participou de cantorias de improviso acompanhadas pela viola, uma prática fundamental na cultura nordestina. 

Essa dimensão oral ajuda a compreender sua produção visual.

No cordel, palavra e imagem frequentemente caminham juntas. A capa ilustrada chama a atenção do público, enquanto os versos conduzem o leitor para dentro da narrativa. A xilogravura, portanto, não é simplesmente uma ilustração: ela funciona como uma porta de entrada para o universo narrado.

Jota Barros transitava justamente nesse espaço entre ver e ouvir, ler e imaginar.

Seus versos poderiam nascer da observação de acontecimentos cotidianos, de personagens populares, de histórias religiosas, de conflitos sociais ou de figuras lendárias. A xilogravura, por sua vez, dava forma visual a esse universo.

A mudança para São Paulo

Em 1973, Jota Barros mudou-se para São Paulo. A transferência representou uma mudança profunda de ambiente, mas não significou o abandono de suas raízes. Pelo contrário: a cultura nordestina continuou sendo o centro de sua produção. 

Na capital paulista, passou a vender seus folhetos em locais frequentados pela comunidade nordestina. Também encontrou espaço para comercializar xilogravuras e folhetos na tradicional Feira de Arte da Praça da República, aos domingos. 

Essa passagem é importante para entender a história da arte popular brasileira. São Paulo, especialmente a partir da segunda metade do século XX, tornou-se destino de milhares de nordestinos em busca de trabalho e novas oportunidades. Nesse cenário, artistas como Jota Barros ajudaram a manter vivas as referências culturais de suas regiões de origem.

Sua arte tornou-se, assim, uma espécie de ponte entre dois mundos.

De um lado, estava Pernambuco, com suas tradições, seus personagens e sua memória. Do outro, São Paulo, com sua enorme população nordestina e sua diversidade cultural.

Xilogravura: uma arte de impacto

A xilogravura possui uma estética imediatamente reconhecível. O contraste entre o preto da tinta e o branco do papel cria imagens fortes, marcadas por linhas, áreas de sombra e contornos expressivos.

No trabalho de Jota Barros, essa linguagem serviu para representar diferentes temas.

O acervo do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular registra, por exemplo, xilogravuras de J. Barros relacionadas à série Santos e seus orixás baianos, incluindo obras dedicadas a Oxalá/Oxalufã e Oxalá/Oxaguiã, datadas de 1979. O próprio acervo identifica elementos relacionados ao sincretismo religioso, ao catolicismo popular e às tradições afro-brasileiras. 

Esse aspecto revela a amplitude temática de sua produção.

Jota Barros não se limitou a representar uma única dimensão do imaginário nordestino. Sua obra dialogou com religiosidade, cultura popular, personagens históricos e narrativas transmitidas de geração em geração.

Um cronista do povo

Talvez seja possível compreender Jota Barros como um verdadeiro cronista visual e poético da cultura popular.

Seu trabalho não buscava apenas produzir imagens bonitas. Havia uma função narrativa.

O artista registrava aquilo que via e aquilo que ouvia. Seus folhetos e xilogravuras podiam transformar personagens populares em protagonistas e acontecimentos aparentemente cotidianos em histórias dignas de memória.

Entre os títulos associados à sua produção estão narrativas como Lampião e Maria Bonita Tentados por Satanás no Paraíso e O Nordestino em São Paulo. Registros sobre sua trajetória também mencionam dezenas de títulos publicados e outros trabalhos inéditos. 

A escolha dos temas revela uma característica essencial de sua arte: o povo não aparece apenas como espectador; ele é personagem.

A resistência da cultura popular

Em uma época em que a cultura de massa começava a ganhar cada vez mais espaço, preservar manifestações tradicionais era também uma forma de resistência.

Jota Barros pertence a uma geração de artistas que demonstrou que a cultura popular não precisava ser tratada como algo menor ou meramente folclórico. Ela poderia ocupar espaços de circulação, despertar interesse artístico e sobreviver por meio de novos públicos.

Sua produção ajudou a mostrar que a arte pode nascer de uma feira, de uma cantoria, de uma oficina de marceneiro ou de um folheto vendido na rua.

Não é necessário estar dentro de uma grande galeria para produzir uma obra culturalmente significativa.

O legado de Jota Barros

A importância de Jota Barros ultrapassa as próprias imagens e poemas que deixou. Seu legado está também na preservação de uma maneira de contar histórias.

Em um mundo cada vez mais dominado por imagens digitais e informações instantâneas, a xilogravura nos lembra do valor da matéria, do tempo e do gesto. Cada corte feito na madeira exige decisão. Cada área deixada em branco participa da composição. Cada impressão carrega pequenas marcas do processo manual.

Essa característica torna a xilogravura particularmente poderosa: nenhuma reprodução elimina completamente a presença da mão do artista.

No caso de Jota Barros, essa presença está associada a uma trajetória de vida profundamente ligada à cultura popular.

Uma história que continua sendo contada

Jota Barros morreu em 2009, mas sua obra permanece inserida em acervos, estudos e registros dedicados à cultura popular brasileira. Pesquisas acadêmicas continuam mencionando sua produção como parte importante da história da literatura de cordel e da xilogravura nordestina. 

Seu percurso revela que a arte popular é, antes de tudo, uma arte de memória.

Cada verso preserva uma voz.
Cada xilogravura preserva uma imagem.
Cada folheto preserva uma história.

E Jota Barros soube transformar essas três dimensões em uma linguagem própria.

Mais do que xilógrafo ou poeta, ele foi um contador de histórias do Brasil profundo. Sua obra nasceu da tradição, atravessou fronteiras geográficas e encontrou em São Paulo um novo público sem perder a ligação com Pernambuco.

Ao olhar para uma xilogravura assinada por Jota Barros, portanto, não estamos diante apenas de uma imagem impressa em papel. Estamos diante de um fragmento de uma cultura que encontrou na arte uma maneira de permanecer viva.

Jota Barros gravou histórias na madeira — e, ao fazê-lo, ajudou a gravá-las também na memória da arte brasileira.

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