Agi Straus: entre a memória europeia, a natureza e a liberdade da criação

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Agi Straus

Uma trajetória marcada por deslocamentos e reinvenções

Agi Straus, pseudônimo artístico de Agathe Deutsch, construiu uma das trajetórias mais singulares entre os artistas de origem europeia que desenvolveram sua carreira no Brasil. Nascida em Viena, na Áustria, em 12 de julho de 1926, Agi chegou ao Brasil em 1938, ainda adolescente, em meio às perseguições promovidas pelo nazismo contra os judeus. A experiência da imigração e a mudança radical de ambiente cultural acompanharam sua formação e sua trajetória artística, estabelecendo uma relação particular entre a memória europeia e a experiência brasileira. Agi morreu em São Paulo, em 2022, aos 96 anos.

Sua trajetória não se restringiu à pintura. Agi Straus foi também desenhista, gravadora, escultora, ilustradora e escritora, desenvolvendo ao longo da vida uma produção diversificada. Estudou no Museu de Arte de São Paulo em 1952, onde teve contato com artistas como Darel Valença Lins, Poty Lazzarotto e Aldemir Martins. Também se aperfeiçoou na técnica do afresco com Gaetano Miani e estudou escultura com Zamoisky. Essa formação contribuiu para uma prática artística aberta a diferentes materiais, linguagens e procedimentos.

Entre Viena e o Brasil

A mudança para o Brasil não representou apenas uma alteração geográfica na vida de Agi Straus. Significou também o início de uma experiência cultural que atravessaria toda a sua produção. Antes de chegar ao país, a artista havia iniciado seus estudos artísticos em Viena, mas precisou interrompê-los em razão da perseguição nazista. Pesquisas sobre artistas judeus refugiados no Brasil destacam Agi entre as mulheres que chegaram ainda jovens ao país e posteriormente desenvolveram carreiras artísticas relevantes, combinando elementos de sua herança cultural europeia com aspectos da experiência brasileira.

Agi viveu em diferentes cidades brasileiras, entre elas Belém, Recife, Salvador, São Luís e São Paulo. Essa circulação por diferentes regiões contribuiu para ampliar sua experiência visual e cultural. Ao estabelecer-se em São Paulo, encontrou um ambiente artístico em transformação, ligado ao desenvolvimento do modernismo e à expansão de instituições voltadas às artes.

Sua história pessoal, portanto, não pode ser separada da própria ideia de deslocamento. A artista carregava consigo uma memória europeia, mas desenvolveu sua produção em contato permanente com o Brasil. Essa combinação aparece menos como uma oposição entre dois mundos e mais como uma convivência entre referências diferentes.

A formação artística em São Paulo

O contato com o Museu de Arte de São Paulo foi fundamental para sua formação. Em 1952, Agi estudou com Darel, Poty e Aldemir Martins, artistas que contribuíram para sua aproximação com diferentes possibilidades do desenho e da pintura. Posteriormente, aprofundou seus estudos de afresco com Gaetano Miani, com quem realizou um afresco no Palácio do Café, e desenvolveu estudos de escultura com Zamoisky.

Essa diversidade de experiências ajuda a compreender por que sua produção não pode ser limitada a uma única técnica. Agi transitou entre pintura, desenho, gravura, escultura e ilustração, construindo uma trajetória na qual diferentes linguagens se complementavam.

A artista também manteve uma relação importante com a literatura infantil. A partir de 1951, passou a escrever e ilustrar livros para a Editora Melhoramentos. Entre 1960 e 1962, fundou e dirigiu a Escola Agi de arte para crianças, em São Paulo. Durante seis anos, trabalhou ainda como desenhista do Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo.

Essa experiência com a ilustração revela outro aspecto importante de sua linguagem: a capacidade de transformar ideias em imagens por meio de desenho, síntese e observação. A ilustração exigia clareza visual, mas também oferecia espaço para imaginação e invenção.

A natureza como centro da pintura

Entre os aspectos mais destacados da produção de Agi Straus está a relação entre natureza-morta e paisagem. Uma análise publicada pela Assembleia Legislativa de São Paulo observa que suas paisagens preservam uma unidade de inspiração com suas naturezas-mortas, incluindo campos floridos e flores isoladas. O texto também destaca o uso de materiais que produzem uma espécie de estratificação na superfície de suas obras.

Essa aproximação entre paisagem e natureza-morta é significativa porque rompe uma separação rígida entre os dois gêneros. Em vez de tratar a paisagem apenas como representação de um espaço exterior e a natureza-morta como reunião de objetos, Agi parece aproximá-las por meio de uma mesma sensibilidade diante da natureza.

Flores, folhas, campos e outros elementos naturais tornam-se motivos capazes de estabelecer relações entre forma, matéria e memória. A natureza deixa de ser simplesmente observada e passa a funcionar como território de experimentação.

A própria crítica institucional sobre sua produção aponta para uma relação ancestral com a terra e para uma possível permanência de referências ligadas à Áustria em seu trabalho. Essa leitura não significa que sua pintura deva ser reduzida à origem europeia da artista, mas ajuda a perceber como memória e experiência podem permanecer presentes mesmo depois de décadas de vida em outro país.

Matéria, textura e superfície

Um dos elementos mais interessantes da produção de Agi está no tratamento da superfície. Seu trabalho não depende apenas da representação de objetos ou paisagens, mas também da maneira como diferentes materiais e técnicas participam da construção da imagem.

Registros sobre sua obra mencionam telas monocromáticas às quais a artista acrescentava elementos naturais, como flores secas e ouriços. Essa prática aproxima pintura e objeto, criando uma superfície que possui presença física própria.

A matéria, nesse contexto, torna-se parte da linguagem. Uma flor não aparece apenas como desenho de uma flor; pode existir também como elemento incorporado à obra. Uma textura deixa de ser simplesmente sugerida pela pintura e passa a existir concretamente.

Esse procedimento cria uma experiência diferente daquela oferecida por uma pintura inteiramente plana. O olhar percorre a superfície, mas também percebe sua materialidade. A obra passa a existir simultaneamente como imagem e como objeto.

“Mundo, mundo, vasto mundo”

Entre as obras de Agi Straus presentes no Acervo Artístico do Parlamento de São Paulo está “Mundo, mundo, vasto mundo”, pintura que foi analisada institucionalmente em conjunto com a escultura “Totem I sobre pedra”. A leitura publicada pela Assembleia Legislativa destaca nessas obras uma forte capacidade de comunicação emocional e um fascínio particular.

O próprio título da pintura possui uma dimensão aberta e poética. “Mundo, mundo, vasto mundo” sugere amplitude, contemplação e relação com aquilo que está além do indivíduo. A repetição da palavra “mundo” amplia a sensação de espaço e de existência.

A escolha do título também pode ser compreendida em relação à trajetória da própria artista. Agi viveu entre diferentes lugares, culturas e experiências. Seu percurso atravessou Viena, diferentes cidades brasileiras e outros países onde posteriormente expôs sua produção. A ideia de um mundo amplo, múltiplo e em permanente transformação encontra, portanto, ressonância em sua trajetória.

Pintura e escultura em diálogo

A produção escultórica de Agi Straus não deve ser vista como uma atividade paralela sem relação com sua pintura. As duas linguagens compartilham uma atenção semelhante à matéria, à forma e à natureza.

A Assembleia Legislativa de São Paulo mantém em seu acervo a escultura “Totem I”, realizada em terracota. A presença dessa obra demonstra a importância que a dimensão tridimensional assumiu em sua produção.

O conceito de totem carrega associações com memória, símbolo e permanência. Na produção de Agi, a escolha desse tipo de estrutura pode ser observada dentro de uma trajetória que frequentemente aproxima o objeto artístico da natureza e da experiência humana.

A escultura oferece uma possibilidade que a pintura não possui: ocupar fisicamente o espaço. A matéria deixa de ser apenas uma superfície e passa a possuir volume, peso e presença. Essa passagem entre duas e três dimensões demonstra a amplitude de sua pesquisa artística.

Uma artista também dedicada à infância

Agi Straus teve uma relação especialmente significativa com a arte para crianças. Além de escrever e ilustrar livros infantis, fundou e dirigiu, entre 1960 e 1962, a Escola Agi de arte para crianças.

Esse trabalho acrescenta uma dimensão pedagógica à sua trajetória. Para uma artista que transitou por diferentes técnicas, ensinar arte significava também estimular a observação e a imaginação em uma fase na qual a relação com o desenho costuma ser espontânea.

Sua experiência como ilustradora e educadora mostra que a produção de imagens não estava limitada ao espaço tradicional da galeria ou do museu. Agi também encontrou na literatura e na educação maneiras de aproximar a arte do cotidiano.

Uma carreira de alcance internacional

Agi Straus construiu uma carreira com circulação muito além de São Paulo. Registros de sua trajetória mencionam exposições individuais em cidades brasileiras e também em Nova York, Washington, Kyoto, Milão e Roma, além de participações em exposições coletivas no Brasil e no exterior.

Sua produção também está presente em diferentes coleções e instituições. O Senado Federal registra obras de Agi em acervos como o Museu Albertina, em Viena; a Fundação Armando Alvares Penteado, em São Paulo; o Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte; o Museu de Arte de Olinda; o Museu de Arte de São Paulo; a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu de Arte do Parlamento de São Paulo.

A existência de obras em instituições de diferentes países demonstra a amplitude de sua circulação artística e ajuda a situá-la dentro de uma geração de artistas imigrantes que participaram ativamente da construção da arte moderna brasileira.

Uma obra entre dois mundos

Agi Straus ocupa uma posição especialmente interessante na história da arte brasileira porque sua trajetória reúne deslocamento, memória, formação europeia e experiência brasileira. Sua produção não precisa ser interpretada como uma simples combinação dessas referências, mas pode ser observada como resultado de uma vida construída entre diferentes ambientes culturais.

A natureza aparece como uma das grandes constantes de sua obra. Flores, paisagens e elementos naturais são transformados em imagens nas quais cor, matéria e forma estabelecem relações próprias. A pintura se aproxima da escultura, a natureza-morta dialoga com a paisagem e a superfície deixa de ser apenas suporte para tornar-se parte da experiência visual.

Ao mesmo tempo, sua atuação como ilustradora e educadora amplia a compreensão de sua trajetória. Agi Straus não foi apenas uma pintora que ocasionalmente trabalhou com outras linguagens. Ela construiu uma carreira verdadeiramente multidisciplinar, na qual desenho, literatura, ensino, gravura, escultura e pintura participaram de um mesmo universo criativo.

Sua morte, em São Paulo, em 2022, encerrou uma trajetória de quase um século, mas não interrompe a presença de sua produção. Obras preservadas em instituições e coleções continuam permitindo que sua linguagem seja revisitada.

Agi Straus permanece, assim, como uma artista cuja obra atravessa fronteiras geográficas e linguísticas sem abandonar a intimidade da matéria. Sua pintura encontra na natureza um campo de investigação, na cor um instrumento de delicadeza e na superfície um espaço de experimentação. Entre a memória de Viena e a experiência brasileira, entre a pintura e a escultura, entre a literatura infantil e as exposições internacionais, construiu uma trajetória marcada pela diversidade.

Mais do que representar a natureza, Agi Straus parece ter buscado compreender sua presença. Flores, campos, objetos e formas naturais tornam-se elementos de uma linguagem que transforma observação em memória e matéria em expressão. É justamente nessa capacidade de unir diferentes experiências que reside uma das características mais importantes de sua produção: a construção de uma obra capaz de fazer da própria passagem pela vida uma experiência artística.

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