Norberto Nicola: a matéria que se transforma em arte

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Norberto Nicola

Na história da arte brasileira do século XX, poucos artistas conseguiram ampliar tanto as possibilidades da tapeçaria quanto Norberto Nicola. Nascido em São Paulo, em 21 de dezembro de 1930, e falecido em 2007, Nicola construiu uma trajetória marcada pela experimentação, pela pesquisa de materiais e por uma profunda capacidade de transformar fios, fibras, cores e elementos naturais em obras que ultrapassavam os limites tradicionais da arte têxtil. Pintor, desenhista, escultor, gravador e, sobretudo, tapeceiro, ele encontrou na matéria uma linguagem própria, capaz de aproximar pintura, escultura, natureza e artesanato. 

Sua importância não está apenas na qualidade estética de suas obras, mas também na maneira como ajudou a modificar a percepção da tapeçaria no Brasil. Em vez de tratá-la como simples elemento decorativo ou como uma extensão das artes aplicadas, Nicola participou de um movimento que passou a entendê-la como uma manifestação artística autônoma. Suas criações introduziram volume, textura, profundidade e materiais inesperados, fazendo com que o espectador não apenas olhasse para a obra, mas tivesse vontade de perceber sua superfície, sua estrutura e sua presença física.

A trajetória de Nicola começou em um ambiente artístico especialmente fértil. Em 1954, iniciou sua formação no curso para professores de desenho da Fundação Armando Alvares Penteado, em São Paulo, e frequentou o Atelier-Abstração, dirigido por Samson Flexor. Foi nesse ambiente que conheceu Jacques Douchez, artista francês com quem estabeleceria uma parceria fundamental para a renovação da tapeçaria brasileira. Em 1957, os dois criaram o Ateliê Douchez-Nicola, que permaneceria ativo até 1980. 

A parceria com Douchez foi decisiva porque permitiu a Nicola mergulhar em uma linguagem que ainda buscava seu espaço dentro do cenário brasileiro. O ponto de partida era a tapeçaria tradicional, mas o caminho escolhido pelos artistas rapidamente se tornou muito mais experimental. As primeiras obras eram essencialmente planas. Com o passar dos anos, entretanto, Nicola passou a investigar a tridimensionalidade, fazendo com que suas tapeçarias deixassem de funcionar apenas como superfícies penduradas na parede e começassem a adquirir características próprias de objetos e esculturas. 

Essa transformação é uma das chaves para compreender seu trabalho. Nicola percebeu que o fio poderia fazer muito mais do que formar desenhos. Poderia criar relevo, sombra, volume, movimento e até mesmo espaço. A tapeçaria passou, então, a ser pensada como uma estrutura que ocupa fisicamente o ambiente. O espectador não encontra apenas uma imagem, mas uma presença.

Sua pesquisa ganhou ainda mais profundidade quando realizou viagens à Europa para estudar diretamente a tradição da tapeçaria. Entre os lugares visitados esteve Aubusson, na França, célebre centro de produção têxtil cuja tradição remonta a séculos. Essa experiência permitiu que Nicola conhecesse de perto técnicas e conhecimentos acumulados por gerações de artesãos. Entretanto, sua contribuição não consistiu simplesmente em reproduzir aquilo que havia aprendido. Ao contrário, ele absorveu referências internacionais e as transformou a partir de sua própria sensibilidade e do contexto brasileiro. 

É justamente nesse processo de transformação que sua personalidade artística se torna mais evidente. Nicola não estava interessado em permanecer preso a uma única fórmula. Sua produção revela uma busca constante por novas possibilidades. Lã, linho e cânhamo podiam conviver com materiais muito menos convencionais, como raízes, folhas, cipós, penas e outros elementos relacionados à natureza. A própria matéria podia carregar marcas, irregularidades e texturas que se tornavam parte essencial da composição. 

A natureza, aliás, ocupa um lugar especial no universo de Nicola. Não se trata necessariamente de representar uma árvore, uma paisagem ou uma planta de maneira figurativa. Em muitos momentos, a natureza aparece através da textura, da organicidade das formas e da própria escolha dos materiais. O artista parecia interessado em fazer com que a obra lembrasse os processos naturais: crescimento, ramificação, sobreposição, transformação e decomposição.

Essa relação fica evidente em trabalhos como “Poente”, pertencente ao acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo. A obra, realizada em tecelagem manual, possui grandes dimensões e explora uma composição abstrata em que cores e linhas sugerem uma atmosfera crepuscular. Tons intensos se concentram em determinadas regiões e escurecem progressivamente em outras, criando uma sensação de profundidade e de transformação da luz. 

Em uma obra como essa, a cor não é apenas preenchimento. Ela constrói a própria atmosfera. O espectador pode perceber a tapeçaria quase como uma paisagem sem precisar encontrar nela uma representação literal do mundo exterior. A combinação de linhas, tons e texturas produz uma experiência sensorial que lembra o momento em que o dia desaparece e a paisagem começa a assumir outras tonalidades.

Essa liberdade também aparece em sua produção pictórica. Nicola não abandonou a pintura ao se dedicar à tapeçaria. Pelo contrário, sua experiência como pintor ajudou a alimentar suas investigações têxteis. Estudos em guache e obras realizadas com técnicas mistas revelam que sua preocupação com a composição, a cor e a estrutura ultrapassava o universo do tear. Existem, por exemplo, registros de “Trama ativa”, obra de 1960 realizada com técnica mista e colagem sobre madeira, mostrando como a ideia de trama poderia existir também fora da tapeçaria propriamente dita. 

O conceito de trama é especialmente importante para compreender Nicola. A trama não representa apenas a técnica de entrelaçar fios. Ela pode ser entendida como uma metáfora de sua própria maneira de criar. Diferentes materiais, cores, experiências e referências se cruzam para formar uma obra. Assim como os fios dependem uns dos outros para construir uma superfície, os diversos elementos de sua trajetória se relacionam para formar uma linguagem artística singular.

Sua produção ganhou reconhecimento institucional ainda durante sua vida. Em 1961, realizou uma exposição individual no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em 1963, participou da 7ª Bienal de São Paulo e posteriormente esteve presente em outras edições importantes do evento. Também apresentou seus trabalhos internacionalmente, incluindo uma exposição na Galeria da Organização dos Estados Americanos, em Washington, em 1973, e no Museu Nacional de Belas Artes do México. Nesse mesmo ano, recebeu o prêmio de tapeçaria da Associação Paulista de Críticos de Arte. 

A presença de Nicola na Bienal de São Paulo possui especial significado porque demonstra como a tapeçaria começava a conquistar espaço dentro de um circuito dedicado às artes visuais modernas e contemporâneas. Seu trabalho ajudou a mostrar que uma obra têxtil poderia participar do debate artístico de seu tempo com a mesma intensidade de uma pintura ou escultura.

Nicola também teve uma atuação importante fora de seu próprio processo criativo. Em 1976, criou a Trienal de Tapeçaria, em São Paulo, iniciativa que teve três edições. A criação desse evento demonstra seu interesse em fortalecer a tapeçaria como campo artístico e criar oportunidades para que outros artistas explorassem a linguagem têxtil. 

Outro capítulo fascinante de sua trajetória foi seu interesse pela arte plumária brasileira. A partir da década de 1970, Nicola tornou-se colecionador e estudioso desse universo, aproximando-se das tradições indígenas e das diferentes formas de utilização das penas como elementos de expressão cultural. Em 1980, organizou a exposição “Arte Plumária no Brasil”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, reunindo peças relacionadas a diferentes povos indígenas. Posteriormente, participou da publicação de um livro sobre a arte plumária indígena brasileira, em coautoria com a antropóloga Sônia Ferraro Dorta. 

Esse interesse ajuda a compreender ainda melhor sua produção artística. A aproximação com materiais naturais não era uma simples escolha estética. Havia também uma curiosidade sobre a relação entre matéria, cultura e identidade. Penas, fibras, raízes e outros elementos carregam histórias próprias e podem funcionar como pontes entre o mundo natural e a experiência humana.

Nas últimas décadas de sua carreira, Nicola continuou demonstrando disposição para experimentar. No final dos anos 1990, passou a produzir gravuras utilizando recursos computacionais, chegando a apresentar algumas dessas experiências em 2000. É significativo que um artista profundamente identificado com o universo artesanal tenha se aproximado de uma tecnologia então relativamente nova. Isso demonstra que sua preocupação fundamental nunca foi defender uma técnica específica, mas investigar as possibilidades da criação. 

Essa capacidade de mudança talvez seja uma das maiores características de seu legado. Nicola não ficou preso à imagem tradicional do tapeceiro. Ele transitou entre pintura, desenho, gravura, escultura e arte têxtil, permitindo que uma linguagem contaminasse a outra. Sua obra mostra que as fronteiras entre essas categorias podem ser muito mais frágeis do que parecem.

O reconhecimento de sua importância continuou depois de sua morte. Em 2009, a Pinacoteca do Estado de São Paulo apresentou a exposição “Norberto Nicola, tapeçaria contemporânea”, dedicada à sua produção. Décadas depois, sua obra continuou aparecendo em exposições e projetos voltados à história da tapeçaria moderna brasileira, incluindo iniciativas dedicadas ao legado do Ateliê Douchez-Nicola. 

O legado de Norberto Nicola está, portanto, muito além de uma coleção de tapeçarias. Ele representa uma mudança de olhar. Ao transformar fios em volumes, materiais naturais em elementos artísticos e superfícies em objetos, Nicola ampliou a própria definição do que poderia ser uma obra têxtil. Sua arte convida o público a olhar, mas também a imaginar a matéria, perceber a textura e compreender que uma obra pode existir não apenas como imagem, mas como corpo dentro do espaço.

Hoje, observar uma criação de Norberto Nicola significa entrar em contato com uma trajetória marcada pela curiosidade e pela experimentação. Suas obras possuem uma força que nasce justamente da união entre tradição e inovação. O conhecimento adquirido com a tapeçaria histórica encontra a liberdade da arte moderna; a geometria dialoga com formas orgânicas; a cor encontra a textura; o artesanal encontra o escultórico.

É essa capacidade de transformar materiais simples em experiências visuais complexas que faz de Norberto Nicola uma figura fundamental da arte brasileira. Sua contribuição ajudou a colocar a tapeçaria em outro patamar, mostrando que fios podem construir não apenas desenhos, mas espaços, atmosferas e pensamentos. Sua obra permanece como testemunho de um artista que nunca aceitou limites rígidos para a criação e que encontrou, na matéria, uma maneira extraordinariamente própria de falar sobre arte, natureza, cultura e transformação.

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