Um artista de múltiplas linguagens
Domenico Serio Calabrone ocupa um lugar particular na história da arte brasileira do século XX. Escultor, pintor, gravador, cenógrafo e designer de joias, o artista ítalo-brasileiro construiu uma trajetória marcada pela experimentação e pela recusa em permanecer limitado a uma única linguagem. Nascido em Aieta, na Calábria, Itália, em 7 de março de 1928, e falecido em São Paulo, em 5 de abril de 2000, Calabrone desenvolveu no Brasil uma obra que aproximou tradição artesanal, pesquisa formal, materiais diversos e inquietações próprias da arte moderna e contemporânea.
Sua produção atravessou diferentes momentos e interesses. No início da carreira, a relação direta com a matéria, especialmente com técnicas de fundição, mosaico, cerâmica e escultura, teve importância fundamental. Mais tarde, o artista exploraria o mármore, o bronze e outros materiais, além de desenvolver uma pesquisa particularmente singular relacionada à chamada arte fractal. Essa capacidade de transformação acompanhou toda a sua trajetória e ajuda a explicar por que Calabrone não pode ser compreendido apenas como um escultor de determinado estilo. Sua obra é, antes de tudo, resultado de uma investigação contínua sobre como a forma nasce, se organiza e se modifica.
Formação italiana e chegada ao Brasil
Entre 1948 e 1951, Calabrone estudou em Roma, frequentando o Liceu Clássico e especializando-se em técnicas relacionadas à fundição, ao mosaico e à cerâmica. Essa formação contribuiu para estabelecer uma relação bastante concreta entre o artista e os materiais. Em vez de considerar a matéria apenas como suporte para uma ideia previamente estabelecida, Calabrone desenvolveu uma prática na qual pedra, metal, cerâmica e outros elementos participavam ativamente da construção da obra.
Em 1954, o artista transferiu-se para São Paulo. A mudança representou uma etapa decisiva de sua carreira. A cidade atravessava um período de intensa movimentação cultural e de consolidação de importantes instituições de arte, tornando-se um ambiente particularmente fértil para artistas interessados nas transformações da linguagem moderna.
Dois anos depois de chegar ao Brasil, Calabrone realizou sua primeira exposição individual na Galeria Art’s Store. A partir daí, sua presença no circuito artístico brasileiro se ampliou progressivamente. Na década de 1960, participou de exposições ligadas ao Museu de Arte Moderna de São Paulo, ao Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo e à Bienal Internacional de São Paulo. Também realizou exposições individuais no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e no Museu de Arte Moderna da Bahia.
A escultura como investigação da forma
A produção escultórica de Calabrone é frequentemente associada à aproximação entre elementos orgânicos e mecânicos. A Enciclopédia Itaú Cultural, conforme reproduzida em fontes especializadas, identifica na obra do artista uma pesquisa que, a partir da década de 1960, procurava unir essas duas dimensões, chegando a conceber figuras que poderiam ser percebidas como híbridos entre o humano e a máquina.
Essa característica é especialmente importante para compreender sua maneira de trabalhar. Suas esculturas não dependem necessariamente da representação literal de uma pessoa, animal ou objeto. Em muitos casos, o artista parte de uma referência reconhecível para submetê-la a um processo de síntese. O corpo pode se tornar volume; o volume pode se transformar em ritmo; uma figura pode ser reduzida a curvas, planos, encaixes e superfícies.
O resultado é uma obra que convida o espectador a observar não somente aquilo que está representado, mas principalmente como a forma se organiza no espaço. A escultura deixa de ser uma imagem tridimensional simplesmente colocada sobre uma base e passa a estabelecer uma relação com o ambiente, com a luz e com o próprio movimento do observador.
Mármore, bronze e a dimensão tátil
A relação de Calabrone com os materiais foi uma das características mais importantes de sua produção. Desde 1970, o artista executava trabalhos em mármore nos laboratórios de Carrara e Pietrasanta, na Itália, centros historicamente ligados à tradição da escultura em pedra.
A experiência com o mármore ampliou suas possibilidades formais. Em textos dedicados ao artista, a Galeria de Arte André destaca a precisão dos cortes e a dimensão tátil de seus mármores de Carrara. A mesma fonte aponta Aristide Maillol e Jean Arp entre suas influências, além de referências provenientes da arte pré-colombiana, especialmente em trabalhos ligados às séries Composição Totêmica e Guerreiro.
No bronze, por outro lado, Calabrone encontrou uma matéria capaz de preservar a complexidade das formas e, ao mesmo tempo, permitir diferentes acabamentos de superfície. Obras atribuídas ao artista aparecem em acervos e catálogos em formatos variados, incluindo esculturas de pequenas dimensões e trabalhos maiores. A Coleção Santander, por exemplo, registra Figura em Movimento III, de 1990, uma escultura em bronze de 37 centímetros de altura. O catálogo destaca a maneira como a obra articula a sinuosidade das formas à rigidez de um material monolítico e observa a presença de diferentes acabamentos na superfície do bronze.
Essa preocupação demonstra que, para Calabrone, a escultura não terminava na definição do volume. A superfície também participava da experiência visual. Polimento, textura, brilho, sombra e variações de acabamento contribuíam para modificar a percepção da obra conforme a iluminação e o ângulo de observação.
A multiplicidade como princípio artístico
Um dos aspectos mais marcantes da carreira de Calabrone foi sua capacidade de transitar por diferentes campos. Além da escultura, trabalhou com pintura, gravura, cenografia e design de joias. Essa multiplicidade não aparece como uma simples acumulação de atividades, mas como parte de uma mesma pesquisa sobre forma e matéria.
Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo após sua morte ressaltou justamente essa característica. O texto registrou que Calabrone não permaneceu preso a uma única linha de trabalho e transitou entre a relação direta com os materiais e sua aplicação em diferentes campos, como a joalheria e a escultura.
A observação é relevante porque sua trajetória ocorreu em um período em que muitos artistas eram frequentemente associados a uma linguagem específica. Calabrone, entretanto, construiu sua identidade justamente através da mudança. O material poderia mudar, a escala poderia mudar e a aparência das obras poderia mudar, mas permanecia a investigação sobre o nascimento da forma.
A descoberta da arte fractal
Na década de 1980, Calabrone iniciou uma das fases mais particulares de sua carreira: o interesse pela arte fractal. A pesquisa tornou-se suficientemente importante para que o artista passasse a ser reconhecido como um dos pioneiros dessa vertente no Brasil. Em 1989, chegou a liderar um grupo internacional de artistas envolvidos com o movimento.
O conceito de fractal, relacionado à matemática e à geometria, envolve estruturas nas quais padrões podem se repetir em diferentes escalas. Para Calabrone, essa ideia oferecia uma possibilidade especialmente rica para a criação artística: encontrar ordem, repetição e organização dentro de estruturas que, à primeira vista, poderiam parecer caóticas.
Em 1999, o Sesc Vila Mariana, em São Paulo, realizou uma exposição panorâmica dedicada ao artista, reunindo desde trabalhos iniciais até suas pesquisas fractais. A mostra apresentou, entre outras obras, a série Flor da Amazônia. Segundo a reportagem publicada na época pela Folha de S.Paulo, Calabrone utilizava nessa série planos de cores diferentes e gradações que produziam uma aparência esfumada, explorando a ideia de que uma aparente desordem poderia conter uma organização interna.
A exposição foi acompanhada do lançamento do livro A Fragmentação e o Nascimento da Forma, de Jacob Klintowitz, dedicado à produção do artista. O próprio título da publicação sintetiza uma questão fundamental para compreender Calabrone: a forma não é apresentada como algo estático, mas como resultado de processos de fragmentação, organização e transformação.
Reconhecimento no Brasil e no exterior
A carreira de Calabrone foi marcada por importantes exposições e premiações. Em 1986, recebeu o Prêmio Internacional da Escultura Contemporânea, em Cassano Jonio, na Itália. Em 1990, recebeu prêmio de aquisição no Salão de Arte Contemporânea de Santo André. No ano seguinte, foi homenageado com uma sala especial no Salão Paulista de Arte Contemporânea. Em 1994, recebeu o 41º Prêmio Internazionale di Pittura Città di Pizzo, também na Itália.
Sua presença na Bienal Internacional de São Paulo estendeu-se de 1963 a 1991, demonstrando sua participação prolongada no circuito artístico brasileiro. Também integrou diferentes edições do Panorama de Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1975 e 1978.
Calabrone também deixou obras em espaços públicos e institucionais. A Assembleia Legislativa de São Paulo, por exemplo, registra em seu acervo a escultura O Caixeiro Viajante. O próprio jardim da instituição reúne obras de diversos nomes importantes da escultura brasileira, entre eles Domenico Calabrone.
O legado de um artista inquieto
Domenico Calabrone morreu em São Paulo em 5 de abril de 2000, aos 72 anos. Pouco antes de sua morte, havia realizado a exposição A Fragmentação e o Nascimento da Forma, no Sesc Vila Mariana, dedicada à sua pesquisa sobre os fractais. A Folha de Londrina registrou que ele havia recebido o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, a APCA, em 2000, poucos dias antes de falecer.
Sua trajetória deixou uma contribuição importante para a escultura brasileira justamente por não se limitar a uma única definição. Calabrone foi um artista da matéria, mas também da ideia; da tradição artesanal, mas igualmente da experimentação; da pedra e do bronze, mas também da matemática e das novas concepções de forma.
Sua obra revela que a escultura pode ser simultaneamente objeto, corpo, arquitetura, desenho e pensamento. Em suas mãos, o bronze adquiriu movimento, o mármore ganhou leveza visual e as formas geométricas passaram a dialogar com estruturas orgânicas. A pesquisa fractal levou essa investigação ainda mais longe, aproximando arte e ciência sem transformar a escultura em mera ilustração de um conceito matemático.
É essa permanente transformação que mantém a obra de Domenico Calabrone relevante. Seu percurso mostra que a identidade de um artista não precisa nascer da repetição de uma fórmula. Pode surgir, ao contrário, da disposição para experimentar, mudar de escala, trocar materiais, atravessar linguagens e procurar novas respostas para uma pergunta essencial: de que maneira uma ideia se transforma em forma?
No caso de Calabrone, essa pergunta acompanhou praticamente toda a sua carreira. Da formação italiana às experiências em São Paulo, dos metais às pedras, da joalheria à escultura monumental e das formas orgânicas à arte fractal, sua produção revela um artista interessado em descobrir possibilidades onde outros poderiam enxergar limites. Por isso, sua obra permanece como um importante capítulo da escultura ítalo-brasileira e da história da arte contemporânea no Brasil.









