Uma trajetória que começou tarde, mas encontrou na arte uma linguagem para toda a vida
A trajetória de Odette Eid é uma daquelas histórias que desafiam a ideia de que existe uma idade certa para começar uma carreira artística. Nascida em Zahlé, no Líbano, em 7 de março de 1922, Odette Haidar Eid mudou-se ainda criança para o Brasil, chegando a São Paulo aos três anos de idade. Foi na capital paulista que construiu sua vida, desenvolveu sua relação com a cultura brasileira e, décadas mais tarde, encontrou na escultura o principal meio para expressar uma imaginação que permaneceu viva durante toda a sua existência. A artista morreu em São Paulo, em 13 de julho de 2019, deixando uma produção estimada em mais de 1.200 obras, realizadas em materiais diversos.
A história de Odette Eid também é marcada por uma relação precoce com a arte. Sua mãe era pintora autodidata e realizava cópias de obras de grandes mestres da pintura. Ainda jovem, Odette ajudava a mãe a ampliar e transferir desenhos para as telas, experiência que contribuiu para despertar seu interesse pelas artes visuais. Apesar desse contato inicial, as circunstâncias familiares e financeiras fizeram com que seu desejo de seguir uma formação artística fosse adiado. Somente muitos anos depois, já adulta, casada e mãe de quatro filhos, ela retomaria de maneira mais sistemática seus estudos relacionados à arte.
A formação construída ao longo da vida
A formação de Odette Eid não aconteceu de maneira convencional. Em vez de seguir desde a juventude uma carreira acadêmica nas artes, ela acumulou conhecimentos ao longo dos anos, frequentando cursos de História da Arte, Arte no Brasil, folclore, mitos, magia e arte contemporânea. Entre seus professores e referências estiveram Paulo Ramos Machado, Loy Cox Vilela, Rossini Tavares de Lima, Julieta de Andrade, Fábio Magalhães, Alice Brill e Avancini. Mais tarde, aprofundaria seus conhecimentos especificamente na escultura, frequentando o ateliê Artescultura, onde estudou com Domenico Calabrone e Elvio Becheroni.
Essa formação diversificada ajuda a compreender a variedade temática que apareceria em sua obra. Odette não se limitou a uma única tradição visual. Seu repertório incorporou referências populares, religiosas, mitológicas, familiares e fantásticas. A escultura tornou-se um espaço onde diferentes memórias e interesses poderiam coexistir.
A própria trajetória pessoal contribuiu para essa abertura. Ao longo da década de 1970, Odette realizou viagens pelo Líbano, Oriente Médio, Europa, Estados Unidos, Japão e China, visitando museus e coleções. Essas experiências ampliaram seu repertório visual e cultural e contribuíram para suas futuras criações.
A descoberta da escultura depois dos 60 anos
Um dos aspectos mais marcantes de sua biografia é o momento em que a artista efetivamente iniciou sua produção escultórica. Odette Eid começou a trabalhar profissionalmente como escultora apenas em 1983, já com mais de 60 anos. Antes disso, entretanto, havia passado por uma experiência pessoal decisiva.
Aos 52 anos, enfrentou um câncer de mama e precisou realizar uma mastectomia, que deixou uma deficiência crônica em seu braço direito. Segundo registros biográficos dedicados à artista, essa experiência contribuiu para que ela buscasse novas perspectivas para a própria vida. As viagens realizadas posteriormente e a aproximação mais intensa com a arte fizeram parte desse período de transformação.
O início tardio não impediu uma produção extraordinariamente extensa. Pelo contrário, em poucas décadas Odette construiu um universo escultórico próprio, desenvolvendo técnicas, explorando diferentes materiais e participando de exposições no Brasil e no exterior.
Sua primeira fase artística incluiu pequenas figuras e bonecos com cabeças de epóxi e corpos confeccionados em tecido. Essas criações possuíam caráter lúdico, colorido e surrealista. Em 1983, esse trabalho foi apresentado em uma exposição na Chelsea Art Gallery, em São Paulo. Pouco depois, a artista passou a dedicar-se também ao bronze, material que se tornaria fundamental para sua trajetória.
A força do bronze
O bronze ocupa lugar de destaque na produção de Odette Eid. A escolha do material permitiu que a artista desenvolvesse figuras de presença física marcante, explorando volumes, gestos, corpos e detalhes com uma linguagem que combina observação e imaginação.
Entre seus temas recorrentes estão o amor, a família, a maternidade, a dança, o esporte, os santos e os animais. Também realizou bustos e retratos, além de figuras femininas, personagens religiosos e composições de caráter fantástico.
Uma análise publicada pela Assembleia Legislativa de São Paulo descreveu sua produção como um equilíbrio entre o realismo e a invenção. A observação é especialmente pertinente porque a artista não parece interessada em reproduzir a realidade de maneira puramente documental. Suas figuras partem de formas reconhecíveis, mas frequentemente incorporam estilização, alongamento, movimento e elementos imaginários.
Essa característica pode ser percebida especialmente em suas figuras femininas. Segundo a análise publicada pela Assembleia Legislativa, a artista trabalhou frequentemente com imagens de mulheres e adolescentes, explorando elegância, delicadeza e uma estilização dinâmica do corpo.
A escultura, nesse contexto, não funciona apenas como reprodução anatômica. O corpo transforma-se em linguagem. Uma postura pode sugerir serenidade; uma inclinação pode transmitir movimento; um alongamento pode conferir leveza; uma superfície cuidadosamente trabalhada pode intensificar a sensação tátil.
Realismo e imaginação
A coexistência entre realidade e fantasia é uma das marcas mais interessantes da linguagem de Odette Eid. Seus personagens podem ser reconhecíveis, mas raramente permanecem presos ao realismo convencional.
A própria obra Torre de Babel, de 1997, evidencia essa dimensão simbólica. No olhar da artista, a Torre de Babel representa a humanidade e a união dos povos, associando a imagem a um desejo de paz.
Essa capacidade de transformar temas conhecidos em interpretações pessoais aparece também em suas representações religiosas e mitológicas. A artista não trata esses assuntos apenas como ilustrações. Ela utiliza o corpo, o volume e a composição para construir uma visão própria.
Sua escultura é, portanto, narrativa sem depender exclusivamente da narrativa. A história está presente no tema, mas também está na maneira como o corpo é organizado e como os volumes ocupam o espaço.
A dimensão feminina da obra
A presença da figura feminina ocupa posição especialmente importante em sua produção. As mulheres de Odette Eid aparecem em diferentes situações e formas, algumas ligadas à maternidade, outras à dança, à beleza, à fantasia ou à representação simbólica.
A análise crítica publicada pela Assembleia Legislativa destaca que essas figuras femininas apresentam uma combinação entre realidade corpórea, delicadeza e estilização.
Essa dimensão também pode ser observada na maneira como a artista trabalha o toque e a superfície. A escultura permite que o corpo seja percebido não apenas visualmente, mas também pela sugestão de sua textura e de seu peso.
O próprio Museu a Céu Aberto dedicado à artista descreve sua produção como marcada por uma visão monumental da escultura, destacando a presença corpórea e a exuberância tátil de suas imagens femininas.
A mulher, em sua obra, não é apenas um motivo recorrente. Ela integra um universo artístico no qual corpo, memória, beleza e imaginação se encontram.
Flores, pássaros e formas imaginárias
Embora o bronze seja uma das características mais conhecidas de sua produção, Odette Eid experimentou uma grande variedade de materiais. Produziu obras em bronze, alumínio, acrílico, papel, gesso e tecido, demonstrando interesse constante por novas possibilidades de construção.
As obras em alumínio apresentam especialmente flores e pássaros estilizados ou imaginários. Essa produção foi apresentada em 2005 na exposição Aluminagem, realizada no SESC Ipiranga, em São Paulo. Parte dessas obras encontra-se associada ao Museu de Arte ao Ar Livre do Parque da Luz, ligado à Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Os pássaros são particularmente interessantes porque permitem que a artista explore a relação entre leveza e matéria. O alumínio, apesar de ser um material industrial, pode ser transformado em formas que remetem ao movimento e à delicadeza da natureza.
A artista não procura necessariamente reproduzir um pássaro específico. Em muitos casos, transforma a ideia de pássaro em uma forma imaginária. Assim, natureza e fantasia se encontram.
A irreverência das “Cabeças”
Uma das fases mais particulares de Odette Eid foi sua série de cabeças, especialmente apresentada na exposição Minhas Cabeças, realizada em 2008 na Galeria Estação, em São Paulo. A mostra reuniu trabalhos que revelavam uma artista interessada não apenas na escultura tradicional, mas também na utilização de materiais cotidianos e afetivos.
As cabeças incorporavam elementos como gesso, arame, tecidos, retalhos e objetos associados à memória. A Galeria Estação descreveu essa produção como uma fase marcada por jovialidade e humor, ressaltando a relação direta da artista com os materiais.
A escolha da cabeça como tema possui também uma dimensão simbólica. A cabeça é o lugar do pensamento, da memória, da imaginação e da identidade. Ao criar diferentes personagens, Odette podia transformar o rosto em uma espécie de território para lembranças e fantasias.
Nesse sentido, suas cabeças são mais do que retratos. São construções imaginárias.
Exposições e reconhecimento
A trajetória de Odette Eid inclui numerosas exposições individuais e coletivas. Entre os espaços que receberam sua produção estão instituições e galerias em São Paulo, Goiânia, Brasília, Santos, Uberaba e outras cidades brasileiras, além de exposições em Paris e outras localidades francesas. Em 1995, realizou uma importante retrospectiva no Museu Brasileiro da Escultura, o MuBE, em São Paulo, ocasião em que também foi lançado o livro Odette Eid, Escultura.
Sua presença internacional também foi acompanhada por premiações. Entre os reconhecimentos registrados estão a Medalha de Prata da Galeria Arte Skultura, em 1984; a Grande Medalha de Ouro na I Mostra de Arte Contemporânea Brasil/Estados Unidos, realizada em Tampa, em 1986; além de prêmios em exposições e bienais de arte contemporânea.
Em 1994, a artista apresentou 16 esculturas em bronze em exposição realizada no Museu Banespa, em São Paulo, ao lado das pinturas de Gregory Fink. O registro da Folha de S.Paulo demonstra que, naquele período, sua produção já fazia parte do circuito expositivo paulistano.
Uma produção voltada à vida
Um dos aspectos mais interessantes da obra de Odette Eid é a variedade de temas. Amor, família, maternidade, animais, dança, esporte, religião, flores, pássaros e personagens imaginários convivem em sua produção.
Essa diversidade não significa falta de unidade. Existe um elemento que aproxima essas obras: a celebração da vida e da capacidade humana de imaginar.
Mesmo quando trabalha com temas religiosos ou mitológicos, Odette frequentemente introduz uma dimensão de movimento e humanidade. Seus personagens possuem presença física, mas também parecem carregar histórias.
Sua escultura não é silenciosa. Ela sugere gestos, encontros, relações e sentimentos.
É justamente por isso que sua produção pode ser observada tanto como construção formal quanto como narrativa. O espectador encontra uma forma tridimensional, mas também é convidado a imaginar aquilo que existe por trás dela.
Um legado que continua presente
Odette Eid faleceu em 2019, mas sua obra permanece acessível em coleções, acervos e espaços dedicados à preservação de sua memória. Suas criações chegaram a coleções particulares e institucionais em diversos países, incluindo Brasil, Alemanha, Austrália, Áustria, China, Egito, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Israel, Itália, Líbano, Noruega, Síria e Suécia.
Em 2022, Santo Antônio do Pinhal, cidade que teve importância especial em sua trajetória, inaugurou um Museu a Céu Aberto dedicado às suas obras, como parte das comemorações do centenário da artista. O espaço representa uma maneira de manter sua produção em contato direto com o público e com a paisagem que também serviu de inspiração para sua obra.
A relação de Odette com Santo Antônio do Pinhal foi particularmente importante. Em 1980, ela e o marido, Calim Eid, adquiriram uma propriedade rural na região. O local tornou-se um refúgio para a artista e, posteriormente, um espaço associado à sua produção e à preservação de seu acervo.
Uma artista que transformou experiência em criação
A trajetória de Odette Eid mostra que a arte pode surgir em diferentes momentos da vida e que a experiência pessoal pode se transformar em matéria criativa. Sua carreira escultórica começou quando já havia ultrapassado os 60 anos, mas em poucas décadas ela construiu uma produção extensa e diversificada.
A artista enfrentou mudanças, viagens, desafios físicos e transformações pessoais sem abandonar a busca por novas formas de expressão. Do tecido ao bronze, do gesso ao alumínio, das pequenas cabeças às figuras monumentais, sua obra revela uma curiosidade permanente.
Talvez seja justamente essa liberdade que melhor defina seu legado. Odette Eid não permaneceu presa a uma única técnica, material ou tema. Sua produção percorreu o real e o imaginário, o cotidiano e o fantástico, o íntimo e o monumental.
Suas esculturas demonstram que a matéria pode adquirir personalidade quando atravessada pela imaginação. O bronze transforma-se em corpo, o alumínio em pássaro, o tecido em personagem e o objeto cotidiano em memória. A artista não apenas esculpia formas: construía mundos.
Por isso, sua trajetória permanece relevante para a história da escultura brasileira. Odette Eid demonstrou que uma carreira artística não precisa seguir uma trajetória convencional para alcançar força e reconhecimento. Começou tarde, mas encontrou na escultura uma linguagem capaz de reunir tudo aquilo que havia acumulado ao longo da vida: experiências, viagens, estudos, memórias, afetos e uma imaginação extraordinariamente livre.
Sua obra continua a lembrar que criar também é uma maneira de reinventar a própria existência. E, no universo de Odette Eid, essa reinvenção ganhou corpo, volume, movimento e matéria, transformando uma longa experiência de vida em uma produção artística marcada pela liberdade, pela fantasia e pela presença humana.









