Romano Di Martino: entre o simbolismo, a cor e a teatralidade da vida

0
5
Roberval Di Martino

Uma trajetória entre culturas

Romano Di Martino ocupa um lugar singular no panorama da pintura figurativa do século XX. Nascido em Alexandria, no Egito, em 8 de abril de 1940, o artista construiu sua formação e sua trajetória profissional em diferentes ambientes culturais, tendo estudado Belas-Artes em Roma e desenvolvido uma produção que atravessou pintura, desenho e gravura. O Catálogo das Artes registra sua atuação como pintor, desenhista e gravador, além de identificar sua assinatura artística como R. Di Martino. 

Sua biografia disponível em fontes especializadas ainda é relativamente pouco extensa, mas os registros existentes permitem compreender alguns dos principais caminhos de sua produção. Uma das fontes dedicadas ao artista informa que ele realizou cerca de 30 exposições individuais e participou de mais de 150 mostras coletivas e salões de arte, além de ter recebido medalhas de ouro e prêmios de aquisição. Esses dados ajudam a dimensionar uma carreira construída por meio de ampla circulação expositiva e de uma produção que alcançou diferentes públicos. 

A formação romana foi particularmente importante para sua linguagem. Segundo a Art e Dossier, Di Martino iniciou sua atividade artística sob influência do universo surrealista associado a Giorgio de Chirico, referência decisiva para a construção de uma pintura interessada não apenas pela aparência imediata das coisas, mas também por seus significados simbólicos. A mesma fonte caracteriza sua produção posterior como um figurativismo simbólico contemporâneo, no qual aparecem como elementos recorrentes a cor, os conteúdos sociais, o simbolismo, a melancolia e o romantismo. 

Essa combinação de referências ajuda a compreender por que suas pinturas frequentemente parecem situar-se entre o real e o imaginário. Em vez de simplesmente reproduzir pessoas, objetos ou situações cotidianas, o artista transforma esses elementos em personagens de uma narrativa visual. Suas figuras carregam uma dimensão teatral, como se cada composição apresentasse uma cena retirada de uma história maior, interrompida justamente no instante em que o espectador começa a imaginar o que aconteceu antes e o que poderá acontecer depois.

A força da figura humana

Entre os elementos mais reconhecíveis da produção de Romano Di Martino está a presença constante da figura humana. Registros de obras do artista conservados em catálogos de arte incluem títulos como Figura Feminina, Figuras, Pierro, Arlequim, Il Baro, La Gita e Arlequim Praia. A variedade dos títulos revela um universo povoado por personagens, encontros e situações que transitam entre o cotidiano e a fantasia. 

O personagem do Arlequim merece atenção especial. Na tradição europeia, o Arlequim está ligado à Commedia dell’Arte, ao teatro popular italiano e à representação de uma personalidade ao mesmo tempo irreverente, astuta, melancólica e profundamente humana. Na obra de Di Martino, essa figura assume uma dimensão ainda mais abrangente. A Art e Dossier apresenta o Arlequim como personagem-chave de sua produção, aparecendo em diferentes estados e situações: severo, apaixonado, triste ou revoltado. A fonte interpreta essa recorrência como uma espécie de representação da própria condição humana. 

É justamente essa dimensão que faz do Arlequim de Di Martino algo maior do que uma simples referência teatral. Ele pode ser compreendido como um alter ego artístico, um personagem através do qual o pintor observa as contradições da existência. A máscara, nesse contexto, não serve apenas para esconder uma identidade. Ela também revela sentimentos. O personagem teatral passa a representar emoções universais: alegria, solidão, desejo, ironia, sofrimento e esperança.

A escolha do Arlequim também permite ao artista explorar uma característica fundamental de sua pintura: a possibilidade de transformar a realidade em espetáculo. Seus personagens parecem participar de uma encenação silenciosa, na qual roupas, gestos, cores e objetos assumem funções narrativas. O espectador não recebe uma história completamente explicada; recebe pistas para construir sua própria interpretação.

Cor como elemento de expressão

A cor é outro dos aspectos fundamentais da linguagem de Romano Di Martino. A Art e Dossier identifica o colorido como um dos temas dominantes de sua produção, enquanto registros comerciais de suas obras descrevem telas de forte presença cromática e associam sua pintura a temas figurativos, músicos, arlequins e cenas cotidianas. 

Nos trabalhos catalogados, essa preocupação aparece acompanhada por uma diversidade de procedimentos. Há registros de pinturas em óleo sobre tela, técnica mista e acrílica sobre tela. Entre elas estão Figura Feminina, em óleo sobre tela, Pierro, em acrílica sobre tela, Vernissage, em técnica mista, e diferentes composições de dimensões variadas. 

Essa variedade demonstra que Di Martino não ficou limitado a uma única solução material. O óleo permitiu-lhe construir superfícies mais densas e trabalhar cuidadosamente as relações entre figura e fundo, enquanto a técnica mista abriu espaço para combinações de procedimentos e texturas. A presença da gravura em sua trajetória amplia ainda mais esse repertório, revelando um artista interessado nas possibilidades de reprodução, desenho e construção da imagem.

O título Forma e Colori, associado a uma pintura de 2005, sintetiza de maneira sugestiva dois pilares de sua linguagem: a organização das formas e a intensidade cromática. A obra, registrada como óleo sobre tela de 45 por 55 centímetros, pertence a uma fase madura de sua produção. 

O universo teatral e cotidiano

O interesse pelo teatro aparece de maneira recorrente no repertório de Di Martino. Arlequim, Pierro, Il Baro e Vernissage são títulos que evocam personagens, encontros sociais e ambientes nos quais a vida cotidiana adquire uma dimensão cênica. 

Em Il Baro, por exemplo, o próprio título remete à figura do jogador ou trapaceiro, sugerindo uma situação marcada pela tensão, pelo jogo e pela ambiguidade. Já Vernissage conduz o olhar para o universo das exposições, das relações sociais e do próprio ambiente artístico. La Gita, por sua vez, apresenta a ideia de passeio, deslocamento e convivência. Esses títulos mostram que o artista encontrava matéria pictórica tanto em personagens arquetípicos quanto em situações reconhecíveis da vida social.

Há também espaço para temas aparentemente mais simples. Meninos e melancia, registrado como óleo sobre tela colada sobre placa, aproxima a produção do artista de uma cena cotidiana e espontânea. A presença de crianças e de um elemento tão comum quanto uma melancia permite imaginar uma pintura construída a partir da observação da vida, mas transformada pelo tratamento poético e cromático característico de seu repertório. 

Assim, o cotidiano não aparece necessariamente como registro documental. Ele passa por uma espécie de transformação poética. Pessoas comuns podem adquirir a presença de personagens; objetos simples tornam-se elementos de composição; situações ordinárias ganham uma atmosfera de fábula.

A dimensão simbólica da obra

A pintura de Romano Di Martino pode ser observada também como uma reflexão sobre os papéis desempenhados pelas pessoas. O Arlequim, nesse sentido, funciona como uma imagem particularmente poderosa porque reúne aparência e interioridade. Sua roupa remete ao espetáculo, mas sua expressão pode sugerir sentimentos profundamente humanos.

A Art e Dossier chega a interpretar a produção do artista como uma representação da “encenação da vida”, tendo o próprio Arlequim como figura central dessa narrativa.  Essa interpretação é importante porque ajuda a perceber que a teatralidade de Di Martino não está restrita aos personagens ligados diretamente à tradição da Commedia dell’Arte. Ela se espalha por toda a sua pintura.

A vida, para o artista, parece funcionar como um palco onde diferentes personagens assumem diferentes papéis. O homem pode ser espectador e protagonista; a mulher pode aparecer como figura contemplativa ou personagem de uma cena; o músico pode representar a celebração; o Arlequim pode encarnar a contradição. Dessa maneira, a pintura transforma experiências particulares em imagens capazes de dialogar com sentimentos universais.

Entre a tradição e a modernidade

Um dos aspectos mais interessantes de Di Martino está na convivência entre referências tradicionais e uma construção visual moderna. Sua ligação com a cultura italiana é evidente na escolha de personagens como Arlequim e Pierrot, enquanto a influência atribuída a De Chirico o aproxima de uma tradição moderna interessada no mistério, no simbolismo e na transformação da realidade.

Isso não significa que sua pintura deva ser reduzida a uma simples continuação da obra de De Chirico. Ao contrário, as fontes disponíveis apontam para uma trajetória própria, marcada pelo desenvolvimento de um figurativismo simbólico no qual cor, romantismo e conteúdos sociais ocupam posição central. 

O resultado é uma linguagem que permite ao espectador reconhecer figuras e situações sem que a obra se esgote nessa identificação. Existe sempre alguma coisa além da aparência. Uma cena pode parecer alegre e, simultaneamente, carregar certa melancolia. Um personagem pode estar vestido para uma festa e, ainda assim, transmitir solidão. Um grupo de figuras pode sugerir convivência, mas também esconder conflitos.

É nessa ambiguidade que a obra encontra grande parte de sua força poética.

Um legado construído pela imagem

Os registros existentes mostram que Romano Di Martino teve uma presença significativa em exposições e no circuito de arte, embora sua biografia ainda seja menos documentada em fontes públicas do que a de muitos artistas de sua geração. Seu nome permanece associado a uma produção diversificada, com pinturas, desenhos e gravuras, além de obras que continuam aparecendo em catálogos e no mercado de arte. 

Obras como Arlequim, de 1998, registrada em óleo sobre tela, e Il Baro, de 2002, demonstram a permanência de determinados temas ao longo de sua trajetória.  Já trabalhos como Serenata, de 1996, Figura Feminina, Meninos e melancia, Vernissage e diferentes composições revelam a amplitude de situações e personagens explorados pelo artista. 

Mais do que uma pintura simplesmente figurativa, a produção de Romano Di Martino se apresenta como um território de encontros entre cor, personagem, memória, teatralidade e simbolismo. Seu trabalho convida o observador a olhar para além da cena representada e perceber o que existe por trás dela. O Arlequim deixa de ser apenas uma figura de fantasia para se transformar em metáfora da própria experiência humana; a cor deixa de cumprir apenas uma função decorativa e passa a construir atmosferas; e o cotidiano deixa de ser apenas realidade para se tornar narrativa.

Romano Di Martino encontrou, assim, na pintura uma maneira de transformar a vida em espetáculo visual. Entre personagens, músicos, figuras femininas, cenas sociais e imagens de caráter simbólico, sua obra constrói uma espécie de teatro silencioso, no qual cada tela guarda uma história possível. É justamente nessa capacidade de unir o reconhecimento imediato da figura à sugestão de significados mais profundos que reside uma das características mais marcantes de sua produção. Sua arte permanece como um convite à contemplação, à imaginação e à descoberta de novas leituras a cada olhar.

Romano Di Martino: entre o simbolismo, a cor e a teatralidade da vida 1
Roberval Di Martino

:::