Elvio Becheroni: entre a geometria, a matéria e a força da natureza

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Elvio Becheroni

Elvio Becheroni: entre a geometria, a matéria e a força da natureza

Um artista de múltiplas linguagens

Elvio Becheroni ocupa uma posição singular dentro da arte moderna e contemporânea italiana e brasileira. Nascido em Florença, em 1934, o artista construiu uma trajetória marcada pela experimentação e pela passagem constante entre diferentes linguagens. Escultor, pintor, gravador, ceramista, designer e criador de joias, Becheroni desenvolveu uma produção na qual a forma, a matéria, o espaço e a natureza aparecem profundamente relacionados. Sua carreira artística começou em 1962 e, a partir de 1980, o Brasil tornou-se um dos principais territórios de sua atuação. Fontes italianas e brasileiras registram sua morte em São Paulo, em 2000. 

Mais do que simplesmente transitar por diferentes técnicas, Becheroni parece ter compreendido a arte como um campo aberto de investigação. A escultura não estava isolada da pintura; o desenho podia dialogar com a gravura; a cerâmica e a joalheria permitiam novas experiências com matéria e volume. Essa característica interdisciplinar é fundamental para compreender sua produção, especialmente porque muitas de suas obras partem de estruturas geométricas e espaciais que poderiam existir tanto sobre uma superfície quanto em três dimensões.

Sua formação e sua atuação estiveram ligadas principalmente a Milão, cidade para a qual se transferiu ainda jovem e onde completou sua formação. Posteriormente, sua trajetória também o levou aos Estados Unidos e, a partir dos anos 1980, ao Brasil. Registros biográficos apontam que Becheroni viveu e trabalhou entre Milão, São Paulo e Southfield, na região de Detroit. 

A geometria como linguagem

Um dos aspectos mais marcantes da produção de Elvio Becheroni é a presença da geometria. Segundo a Galeria de Arte André, suas obras apresentam figuras geométricas e composições espaciais estruturadas por cálculos, progressões matemáticas e um estudo cuidadoso dos materiais empregados. Essa dimensão racional, entretanto, não elimina a sensibilidade. Pelo contrário: é justamente do encontro entre cálculo e matéria que nasce grande parte da força visual de seu trabalho. 

Em suas esculturas, volumes, vazios, cortes, curvas e planos estabelecem relações que mudam conforme o observador se movimenta diante da obra. A escultura deixa de ser apenas um objeto colocado no espaço e passa a interferir na percepção do ambiente. Uma abertura pode revelar o fundo; uma curva pode conduzir o olhar; uma superfície pode produzir sombra; uma estrutura compacta pode parecer mais leve por causa de um vazio cuidadosamente planejado.

Essa preocupação com o espaço aproxima Becheroni de uma tradição moderna que procurou libertar a escultura da simples representação de figuras reconhecíveis. Em vez de reproduzir fielmente um corpo, uma árvore ou um objeto, o artista poderia investigar equilíbrio, proporção, tensão, ritmo e matéria. Um texto publicado pelo Museu de Arte do Parlamento de São Paulo chegou a caracterizar Becheroni como um dos artistas que seguiram de maneira rigorosa e lógica um caminho em direção à abstração. 

A madeira e a descoberta da natureza

Apesar de sua relação com a geometria e a abstração, Elvio Becheroni manteve uma conexão intensa com a natureza. Essa relação aparece de maneira especialmente evidente em suas esculturas de madeira. A madeira não era tratada apenas como um suporte neutro, mas como uma matéria dotada de características próprias, com textura, densidade, irregularidades e memória.

O Museu de Arte do Parlamento de São Paulo destaca que a madeira foi uma das matérias-primas com as quais o escultor mais se identificou. Segundo o texto publicado pela instituição, Becheroni construía formas compactas ou curvas, muitas vezes perfuradas, criando relações entre interior e exterior e explorando a maneira como a luz atravessa ou contorna a escultura. 

Esse aspecto ajuda a compreender uma das questões centrais de sua obra: o diálogo entre aquilo que é sólido e aquilo que é vazio. Ao perfurar uma forma, o artista não simplesmente retira matéria. Ele cria uma nova possibilidade espacial. O vazio passa a ter importância equivalente à superfície, e a luz passa a participar da construção da obra.

Em trabalhos como Árvore do Conhecimento, essa relação entre natureza e estrutura ganha uma dimensão simbólica. A obra, pertencente ao acervo do Museu de Arte do Parlamento de São Paulo após doação da família do artista, foi apresentada pela instituição como exemplo da clareza, harmonia e firmeza presentes na produção de Becheroni. 

A preocupação ambiental

A natureza não aparece apenas como referência formal em Becheroni. Ela também se transforma em tema de reflexão. Textos publicados pelo Museu de Arte do Parlamento de São Paulo ressaltam que a relação entre homem e natureza foi uma preocupação constante do artista e interpretam sua produção como uma espécie de alerta diante das ameaças ao ambiente. 

Essa dimensão ambiental se torna especialmente importante quando observamos a presença de árvores, formas orgânicas e referências à floresta em diferentes fases de sua produção. Becheroni parece interessado na contradição entre uma natureza viva e um mundo progressivamente dominado pela intervenção humana.

Essa preocupação alcançou uma expressão internacional na exposição Amazônia: Floresta Desencantada, realizada em 1993 na Rotonda della Via Besana, em Milão, a convite da prefeitura da cidade. Posteriormente, a exposição também foi apresentada na França e, em 1995, no Palmengarten, em Frankfurt. 

O próprio título da exposição já revela uma tensão importante. A Amazônia é tradicionalmente associada à exuberância, à diversidade e à força natural. Ao qualificá-la como uma “floresta desencantada”, Becheroni introduz uma dimensão crítica: a beleza da natureza pode coexistir com sua vulnerabilidade.

Pintura, gravura e desenho

Embora seja frequentemente lembrado pela escultura, Becheroni não pode ser compreendido apenas por sua produção tridimensional. Sua trajetória inclui pintura, desenho e gravura, linguagens que também serviram para investigar composição, espaço e estrutura.

Registros de obras mostram, por exemplo, a pintura D 97, uma acrílica sobre tela de 1976, além de trabalhos intitulados Spazio allusivo, S. Allusivo e Metamorfose, realizados em óleo sobre tela durante a década de 1970. Há também registros de Pantanal e Pantanal, Brasil, IPE, identificados como gravuras, além da serigrafia Árvore, de 1990. 

Esses títulos são reveladores. “Espaço alusivo” sugere uma preocupação com um espaço que não precisa ser descrito literalmente. “Metamorfose” aponta para transformação e mudança. “Árvore” e “Pantanal” estabelecem uma relação mais direta com a natureza. Em conjunto, essas obras ajudam a perceber como o artista transitava entre o abstrato e o reconhecível.

O desenho também teve papel importante em sua produção. Registros de mercado de arte incluem trabalhos como Verso alto e O signo da vitória, ambos realizados a lápis. Além disso, há registros de duas litografias coloridas de 1973, uma representando paisagem e outra mãos. 

Reconhecimento internacional

A importância de Becheroni foi reconhecida ainda durante sua trajetória. A comissão de críticos do Anuário de Arte Bolaffi/Mondadori da Itália o selecionou como um dos artistas gráficos destacados em 1971 e 1982, como um dos pintores destacados em 1974 e como um dos escultores destacados em 1982. 

O artista também participou de exposições individuais e coletivas, galerias e bienais internacionais. Sua atividade não se limitou à produção de objetos artísticos: Becheroni também atuou como correspondente de arte para as revistas italianas Domenica del Corriere e Corriere d’Informazione. Nesse trabalho, realizou reportagens sobre artistas soviéticos, tanto oficiais quanto dissidentes. 

Suas viagens de estudo e trabalho incluíram, além da Europa, os Estados Unidos, o Oriente Médio e a então União Soviética. Essa experiência internacional ampliou seu contato com diferentes culturas e ambientes artísticos, contribuindo para uma produção que não se enquadra facilmente em uma única escola ou categoria. 

O bronze e a presença humana

A produção escultórica de Becheroni também inclui o bronze, material que aparece em diversos registros de obras. Entre elas está Fênix, escultura em bronze de 38 centímetros de altura, enquanto outros catálogos registram esculturas menores e obras em séries numeradas. 

Há ainda Unione perenne, registrada em um catálogo de leilão italiano como uma escultura composta por dois elementos em bronze sobre base de madeira, produzida por fundição à cera perdida e em edição de 2/100. 

Outros registros apresentam personagens concebidos como múltiplos, alguns deles em acabamentos prateados e dourados, incluindo Personaggio programmato, Personaggio innamorato, Personaggio sociale e Personaggio senza preoccupazioni. 

Essas obras mostram que o interesse de Becheroni pelo ser humano também poderia ser tratado de maneira não naturalista. A figura humana aparece transformada em estrutura, símbolo ou composição. O artista não precisa reproduzir anatomicamente uma pessoa para falar sobre humanidade. Pode fazê-lo através de proporções, volumes, relações entre partes e posições no espaço.

Um legado entre Itália e Brasil

A trajetória de Elvio Becheroni estabelece uma ponte significativa entre Itália e Brasil. Nascido em Florença, formado artisticamente em Milão e posteriormente estabelecido no Brasil, o artista levou consigo uma tradição europeia de pesquisa formal e encontrou em território brasileiro novos temas, paisagens e possibilidades.

A partir de 1980, sua presença no Brasil tornou-se permanente, e sua produção passou a integrar também o contexto artístico paulista. Obras suas encontram-se registradas no Museu de Arte do Parlamento de São Paulo e no Museu da Escultura ao Ar Livre, além de coleções e instituições em diferentes países. 

Essa circulação internacional ajuda a explicar a amplitude de sua obra. Becheroni não pertence exclusivamente à história italiana nem pode ser compreendido apenas como um artista estrangeiro que passou a trabalhar no Brasil. Sua produção foi construída justamente no trânsito entre culturas, materiais e linguagens.

A permanência de uma pesquisa

Elvio Becheroni deixou uma produção que continua despertando interesse justamente por não se limitar a uma única forma de expressão. Pintura, gravura, desenho, cerâmica, joalheria e escultura fazem parte de uma mesma investigação sobre matéria, espaço, transformação e natureza.

Sua obra escultórica permanece particularmente significativa pela maneira como concilia rigor geométrico e organicidade. A madeira pode assumir formas abstratas sem perder sua ligação com a natureza; o bronze pode transformar figuras em estruturas; a pintura pode explorar espaços que não precisam representar literalmente um lugar; a gravura pode reduzir a imagem aos elementos essenciais.

Ao observar esse conjunto, percebe-se que a arte de Becheroni foi construída sobre uma pergunta permanente: de que maneira uma matéria pode transformar-se em pensamento visual? Em suas mãos, madeira, bronze, papel, tela, cerâmica e metal deixam de ser simplesmente materiais e passam a participar de uma linguagem.

É essa combinação entre razão e sensibilidade, geometria e natureza, estrutura e transformação que mantém Elvio Becheroni relevante. Sua trajetória internacional, seu período de atuação no Brasil, suas experiências multidisciplinares e sua preocupação com o ambiente formam um legado que ultrapassa classificações simples. Becheroni fez da matéria um território de investigação e da forma uma maneira de pensar o mundo.

Sua presença em acervos brasileiros e internacionais, assim como a continuidade de registros de suas obras em coleções e leilões, demonstra que sua produção permanece integrada à memória da arte moderna e contemporânea. 

Entre a precisão das formas geométricas e a imprevisibilidade da madeira, entre a presença física da escultura e a delicadeza do desenho, Elvio Becheroni construiu uma obra marcada pelo desejo de experimentar. Seu legado permanece justamente nessa capacidade de fazer com que materiais aparentemente silenciosos adquiram movimento, significado e presença diante do olhar.

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