A trajetória artística de Liriah Alvares se desenvolve em torno de uma pesquisa marcada pela experimentação, pela gravura, pelas formas geométricas e, sobretudo, pelo universo simbólico das mandalas. Sua produção convida o espectador a desacelerar o olhar e estabelecer uma relação mais contemplativa com a imagem, transformando a obra em um espaço de equilíbrio, reflexão e conexão. Ao longo de sua formação, a artista experimentou diferentes linguagens, entre elas pintura, fotografia e colagem, até encontrar na gravura um campo especialmente fértil para desenvolver suas ideias. Seu percurso revela uma artista interessada não apenas na construção visual, mas também nas possibilidades de utilizar a arte como instrumento de investigação interior.
O interesse de Liriah pelas mandalas possui raízes antigas. Segundo informações apresentadas pela própria artista em registros do Projeto Volante, esse universo despertou sua atenção ainda na adolescência e posteriormente se transformou em uma pesquisa mais profunda envolvendo símbolos, geometria sagrada, cromoterapia, ancestralidade e diferentes formas de conhecimento. Para Liriah, a mandala ultrapassa a condição de simples desenho geométrico. Ela representa um espaço de organização, equilíbrio e conexão entre diferentes dimensões da experiência humana. A artista busca aproximar aquilo que é material daquilo que é espiritual, criando imagens nas quais a geometria assume uma função que vai além da decoração.
Essa característica pode ser percebida na própria estrutura das mandalas. O círculo, elemento recorrente nessa linguagem, possui uma capacidade particular de conduzir o olhar para o centro e, posteriormente, fazê-lo percorrer novamente os elementos ao redor. A repetição de formas, linhas e símbolos cria um ritmo visual que pode produzir uma sensação de estabilidade. Ao observar uma composição desse tipo durante alguns minutos, o espectador deixa de perceber apenas uma sucessão de elementos gráficos e passa a experimentar uma espécie de percurso visual. O olhar se movimenta, retorna, encontra novos detalhes e estabelece relações entre as diferentes partes da imagem.
Essa dimensão contemplativa é fundamental para compreender a produção de Liriah Alvares. Em uma sociedade dominada pela velocidade, pela abundância de informações e pelo consumo constante de imagens, obras que exigem tempo de observação assumem uma importância particular. A artista entende suas mandalas como possibilidades de proporcionar sensações de paz, equilíbrio, harmonia e alegria. A contemplação, nesse contexto, deixa de ser apenas uma maneira de observar arte e passa a ser parte da própria experiência proposta pela obra.
A escolha da gravura também contribui para essa identidade. Diferentemente da pintura realizada diretamente sobre uma superfície, a gravura envolve a criação de uma matriz que posteriormente será utilizada para produzir a imagem. Na xilogravura, por exemplo, o artista trabalha a madeira retirando determinadas áreas e preservando outras, criando uma superfície que receberá tinta e posteriormente será transferida para o papel. O processo exige planejamento, precisão e paciência. Cada corte modifica a matriz e participa da construção definitiva da imagem. Essa relação entre gesto, matéria e resultado estabelece uma conexão particularmente interessante com a pesquisa de Liriah.
A artista também demonstra interesse pela gravura em metal, outra técnica que possui procedimentos próprios e uma longa tradição na história da arte. A experimentação com diferentes processos de impressão amplia suas possibilidades expressivas e demonstra que sua produção não está presa a uma única técnica. A pesquisa de Liriah parece nascer justamente desse desejo de experimentar, descobrir e compreender como diferentes materiais podem transformar uma mesma ideia visual.
A mandala, por sua vez, oferece um universo praticamente inesgotável de possibilidades. Embora sua estrutura possa parecer baseada em regras rígidas de simetria, pequenas mudanças de escala, linha, textura, cor e composição podem produzir resultados completamente diferentes. É nesse equilíbrio entre ordem e liberdade que a artista encontra um território expressivo. A geometria organiza, mas não necessariamente limita. Ela pode funcionar como uma estrutura sobre a qual símbolos, cores e formas desenvolvem novas relações.
Outro aspecto importante de sua produção é a relação com conhecimentos ancestrais. Liriah pesquisa símbolos e conceitos associados a diferentes tradições e procura reinterpretá-los por meio de uma linguagem contemporânea. Essa atitude aproxima sua arte de uma questão presente em muitas manifestações artísticas atuais: como utilizar referências antigas sem simplesmente reproduzi-las? A resposta encontrada pela artista está na transformação. O símbolo deixa de pertencer exclusivamente ao passado e passa a integrar uma imagem contemporânea, aberta à interpretação individual.
Nesse sentido, sua obra pode ser compreendida como uma ponte entre tempos diferentes. Existe o passado das tradições simbólicas, existe o presente da produção artística e existe ainda o futuro da obra, determinado pelas pessoas que irão observá-la. Cada espectador acrescenta uma experiência particular à imagem. Uma mesma mandala pode transmitir serenidade para uma pessoa, despertar lembranças para outra ou simplesmente provocar admiração estética em alguém que não compartilha das referências espirituais utilizadas pela artista.
Essa abertura é uma das características mais interessantes da arte de Liriah Alvares. Embora suas obras estejam relacionadas a conceitos específicos, elas não precisam ser compreendidas de uma única maneira. A arte possui a capacidade de ultrapassar a intenção inicial de quem a produz. Depois de concluída, a obra passa a estabelecer relações próprias com o público. O significado deixa de pertencer exclusivamente ao artista e passa também a ser construído por quem olha.
A presença de Liriah em exposições e projetos artísticos reforça a importância de sua pesquisa. A artista participou do Projeto Volante e também aparece entre os nomes ligados à Vitrine de Arte da Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul. Em 2016, integrou a quinta edição da mostra, que reuniu mais de 130 obras de diferentes artistas. Posteriormente, seu nome apareceu novamente entre os artistas selecionados para a sexta edição da Vitrine de Arte, realizada em 2018. Esses registros mostram sua participação no circuito de exposições e iniciativas voltadas à produção artística contemporânea.
Mais do que simplesmente utilizar mandalas como tema, Liriah Alvares desenvolve uma pesquisa na qual forma e significado caminham juntos. A geometria cria estrutura; a gravura acrescenta matéria e textura; as cores contribuem para a atmosfera; os símbolos introduzem novas possibilidades de interpretação; e a contemplação completa o percurso. O resultado é uma produção que procura estabelecer uma relação sensível entre a obra e o observador.
Sua trajetória também demonstra que a arte pode ser construída a partir de uma busca pessoal. Antes de encontrar uma linguagem própria, o artista frequentemente experimenta, erra, modifica, abandona caminhos e retorna a determinadas ideias. No caso de Liriah, a variedade de técnicas exploradas ao longo de sua formação parece ter contribuído para consolidar uma pesquisa cada vez mais direcionada às possibilidades da gravura e das mandalas. Essa trajetória de descoberta faz parte da própria identidade de seu trabalho.
Ao observar uma obra de Liriah Alvares, portanto, é possível perceber muito mais do que uma composição geométrica. Existe uma tentativa de criar uma experiência. A artista utiliza linhas, formas, cores e símbolos para construir imagens que convidam à permanência. Em vez de oferecer uma narrativa direta, suas mandalas estabelecem um espaço visual no qual o espectador pode permanecer por alguns instantes e construir sua própria interpretação.
Em um período em que a arte frequentemente disputa a atenção com milhares de imagens produzidas diariamente, a obra de Liriah propõe justamente o contrário: olhar com calma. A mandala se transforma em um ponto de concentração, uma estrutura que organiza o olhar e permite que pequenos detalhes sejam percebidos. A gravura acrescenta à experiência a dimensão da matéria, lembrando que uma imagem também pode carregar marcas do tempo, do trabalho manual e do processo de criação.
O percurso de Liriah Alvares revela, assim, uma artista cuja produção está profundamente ligada à ideia de conexão. Conexão entre técnica e espiritualidade, entre geometria e emoção, entre tradição e contemporaneidade, entre matéria e contemplação. Sua arte demonstra que uma forma aparentemente simples pode esconder uma quantidade enorme de possibilidades e que uma imagem pode funcionar simultaneamente como objeto artístico, símbolo e convite à reflexão.
No final, talvez seja justamente essa capacidade de desacelerar o espectador que melhor sintetize sua pesquisa. Diante de uma mandala de Liriah Alvares, o olhar percorre o desenho, encontra o centro, retorna às extremidades e descobre novos detalhes. A obra não precisa ser explicada imediatamente. Ela pode simplesmente ser observada, sentida e interpretada. E é nesse espaço entre o que vemos e o que sentimos que sua arte encontra sua maior força: transformar a contemplação em uma experiência e fazer da imagem um lugar de encontro entre o mundo exterior e o universo interior.














