Diário de Anita Malfati retrata o início de sua carreira

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“Trinta de maio foi sábado e dele só me lembro quando ao lusco-fusco apareceu Freitas Valle com todos seus satélites, sendo os principais Zadig e Elpons (…) quando mamãe perguntou se ele gostava do retrato de Georgina, disse ele – Minha senhora, não se ofenda se sou franco, mas esse quadro está crivado de erros, o desenho é fraco e é um carnaval de cores. O valor artístico não tem nenhum”, narra Anita Malfatti em seu caderno recentemente reencontrado no arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.
O trecho se refere à recepção da primeira exposição individual da modernista, em 1914, e foi publicado na biografia Anita Malfatti no Tempo e no Espaço, da historiadora do IEB Marta Rossetti Batista, em 1985. Ainda sim, por muito tempo, o caderno do qual o trecho havia sido extraído não fora achado. O livro era a única pista da existência de um diário perdido de Anita, cujo paradeiro permaneceu desconhecido até o início de fevereiro deste ano.
(…) o caderno, além do relato sobre a primeira exposição individual da artista, há também exercícios de geometria, listas de palavras em alemão e inglês e esboços de desenhos mais livres. “O caderno é o espaço do talvez”, comenta Elisabete Ribas, chefe do Serviço de Arquivo do IEB, parafraseando o pintor brasileiro Daniel Senise. “Nele pode haver uma receita, uma confissão, um momento de drama, e o da Anita é bem assim. O caderno permite tudo”, explica.
. Em seu diário, a artista se sentia à vontade para avaliar o que acontecia em seu entorno também. “Ela faz uma análise realmente crítica da situação da arte, como funciona o mercado de arte, quais são as pessoas que vão visitá-la na exposição e por que vão visitá-la. Ela expõe isso de uma forma muito clara, com a qual nós não tínhamos tanto contato, a não ser pelas cartas que ela escrevia”, explica Elisabete, ao lembrar das muitas “cartas de pijama” que Anita trocava com Mário de Andrade, sempre muito francas.
“O que é bonito no diário é que ela é um pouco mais jovem do que em outros momentos que estão documentados. Ela é mais inocente, talvez um pouco mais natural”, completa. Um exemplo disso é a história de como Anita tentou se preparar para o seu vernissage de 1914. Comprou sapatos novos para a ocasião, mas, ao chegar ao local, ainda os levava nas mãos. Além disso, a pintora fez questão de pregar ela mesma as telas da exposição.
“Uma coisa que a gente percebe no arquivo, no diário e em tantos outros locais, é que ela se dedica muito àquilo que faz”, analisa Elisabete. Para a pesquisadora, Anita e outros intelectuais da época “foram pessoas que se dedicaram profundamente, de modo a marcar a área em que elas atuaram, a mudar um ciclo, a reformular um pensamento, a representar um povo de uma maneira diferente. No caso da Anita, de uma forma mais colorida”, conclui.
Passada a estreia no Brasil, no final de 1914, Anita viaja a Nova York para estudar arte e finalmente consegue digerir as referências expressionistas que viu na Alemanha. Além disso, começou a produzir os quadros que fizeram parte de sua segunda exposição individual, três anos depois de seu début.
“Em 1917, ela tem uma pintura muito mais gestual, muito mais livre em termos de escolha de cores, que deixam de ser uma referência ideal e passam a ter uma carga mais psicológica, mais interpretativa”, descreve Regina. “Além disso, ela tem um afastamento do espaço, ela deixa de fazer uma perspectiva buscando o tridimensional, a profundidade. As telas vão ficando mais planas e, na figura humana, ela faz cortes que são pouco ortodoxos, pouco acadêmicos.”

Fonte ;trecho reportagem de Larissa Lopes / Jornal da Usp

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Maiores Informações: (43) 99136-9777

 

 

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