Noêmia Mourão: delicadeza, modernidade e a força de uma artista entre dois mundos

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Noêmia Mourão

Em uma história da arte brasileira frequentemente contada a partir de grandes nomes e movimentos consagrados, algumas trajetórias permanecem à margem durante décadas, apesar de sua importância. A de Noêmia Mourão (1912–1992) é um desses casos. Pintora, desenhista, ilustradora e cenógrafa, a artista construiu uma produção marcada pela presença humana, especialmente pela representação de mulheres, pela delicadeza do desenho e por uma paleta cromática sensível. Sua carreira, porém, foi muito além de uma pintura de aparência suave: atravessou o modernismo brasileiro, encontrou a efervescência cultural de Paris e posteriormente voltou-se também para manifestações da cultura indígena brasileira. 

Nascida em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, em 1912, Noêmia cresceu em uma família relacionada à aristocracia cafeeira. Aos 20 anos, iniciou seus estudos artísticos no Clube dos Artistas Modernos, em São Paulo, aproximando-se de um dos nomes fundamentais do modernismo brasileiro, Emiliano Di Cavalcanti. A relação entre os dois ultrapassaria a esfera acadêmica: Noêmia e Di Cavalcanti se casaram em 1933, formando também uma parceria que a acompanharia durante parte importante de sua trajetória. 

Entre São Paulo e Paris

A década de 1930 foi decisiva para a formação de Noêmia Mourão. Em 1935, a artista mudou-se para Paris, onde permaneceu até 1940. A experiência europeia representou uma transformação importante em sua linguagem e ampliou seu contato com diferentes correntes, artistas e instituições culturais.

Na capital francesa, frequentou a Academia Ranson e a Académie de la Grande Chaumière, além de estudar Filosofia e História da Arte na Sorbonne. Seu percurso parisiense não se restringiu às salas de aula. Noêmia também se envolveu com o ambiente artístico da cidade e participou da Société des Femmes Artistes Modernes, aproximando-se de importantes artistas mulheres daquele período. 

Foi justamente em Paris que sua produção começou a estabelecer relações mais evidentes com a obra da francesa Marie Laurencin. A comparação seria tão recorrente que Noêmia chegou a ser chamada pela crítica de “Marie Laurencin das Américas”. Um estudo publicado em 2025 pela Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo, revisita essa aproximação e demonstra como a passagem da brasileira por Paris transformou sua produção artística. 

A comparação, entretanto, precisa ser observada com cuidado. Mais do que simplesmente reproduzir a estética de Laurencin, Noêmia desenvolveu uma linguagem própria, marcada por figuras femininas, linhas delicadas e uma construção cromática particular. A crítica da época muitas vezes interpretava essas características a partir da ideia de uma suposta “arte feminina”, conceito que hoje pode ser analisado criticamente por limitar a complexidade da produção de mulheres artistas. 

A mulher como protagonista

Entre os aspectos mais marcantes da obra de Noêmia Mourão está a representação da figura feminina. Suas personagens aparecem frequentemente em primeiro plano, ocupando um espaço de protagonismo que merece atenção dentro do contexto artístico de sua época.

Em vez de restringir a presença feminina ao ambiente doméstico, Noêmia representou mulheres em diferentes situações e atmosferas. Rostos, gestos, roupas, flores, leques e figuras elegantes aparecem em sua produção, construindo um universo visual de grande sensibilidade.

O MASP conserva uma obra significativa dessa fase: Moças do Boulevard Raspail, de 1939, realizada em óleo sobre tela. A pintura foi produzida durante o período parisiense da artista e apresenta duas figuras femininas como centro da composição. A obra integra o acervo do museu desde 1967. 

A escolha das mulheres como tema recorrente não deve, contudo, ser interpretada apenas como uma característica estética. Ela também revela a maneira como Noêmia construiu sua própria identidade artística em um cenário no qual as mulheres ainda enfrentavam obstáculos consideráveis para obter reconhecimento e espaço institucional.

Uma linguagem de suavidade e precisão

A pintura de Noêmia Mourão combina duas características aparentemente distintas: suavidade e precisão. Suas figuras podem transmitir uma sensação de leveza, mas essa delicadeza não significa ausência de rigor.

O desenho possui papel fundamental em sua produção. Linhas, contornos e gestos ajudam a construir personagens que parecem ocupar a tela com naturalidade. As cores, por sua vez, colaboram para criar atmosferas intimistas, elegantes e, muitas vezes, contemplativas.

Essa combinação explica parte da associação feita pela crítica entre Noêmia e Marie Laurencin. No entanto, a produção da brasileira também incorporou experiências provenientes de sua própria formação e de seu contato com o modernismo brasileiro.

A pesquisa acadêmica recente sobre a artista destaca justamente essa transformação. Sua experiência em Paris não apenas acrescentou referências à sua produção, mas contribuiu para uma mudança significativa na maneira como ela trabalhava a figura humana. 

Uma artista além da pintura

Reduzir Noêmia Mourão à condição de pintora seria insuficiente. Ao longo de sua carreira, ela também trabalhou como desenhista, ilustradora e cenógrafa, demonstrando uma capacidade artística que ultrapassava os limites da tela.

Sua produção gráfica inclui ilustrações para livros e publicações, estabelecendo diálogos entre literatura e artes visuais. Entre os trabalhos associados à artista estão ilustrações para obras de autores como Guilherme de Almeida, Newton Freitas, Joaquim Manuel de Macedo e Mario Quintana. 

No campo da cenografia, Noêmia também participou de projetos importantes. Em 1948, trabalhou na criação de cenários e figurinos para o Teatro Brasileiro de Comédia. Alguns anos mais tarde, em 1954, participou da elaboração de cenários e figurinos para o balé Fantasia Brasileira, dentro das comemorações do IV Centenário da Fundação de São Paulo. 

Essa diversidade demonstra que sua trajetória não se encaixa facilmente em uma única categoria. Noêmia circulou entre pintura, desenho, literatura, teatro, cenografia e pesquisa cultural.

O encontro com a arte indígena

Uma das transformações mais interessantes de sua carreira ocorreu décadas depois de sua experiência europeia. A partir de meados dos anos 1960, Noêmia percorreu diferentes regiões do Brasil para pesquisar manifestações de arte plumária indígena.

O interesse resultou em uma produção que ampliou consideravelmente seu repertório visual. Em 1971, publicou Arte Plumária e Máscaras de Dança dos Índios Brasileiros, obra que registrou parte dessa investigação e demonstra sua atenção às manifestações culturais brasileiras. 

Esse momento é especialmente importante porque revela uma artista em constante transformação. Noêmia não permaneceu presa à linguagem que havia consolidado nas décadas anteriores. Ao contrário, continuou investigando novas possibilidades e incorporando elementos de diferentes universos culturais à sua produção.

Em uma entrevista de 1971, durante uma exposição de desenhos, óleos e tapeçarias inspirados na arte plumária indígena, a própria artista indicou que seus temas tradicionais continuavam presentes — rostos, flores e moças — mesmo enquanto explorava novas referências. 

Reconhecimento e permanência

Noêmia participou de exposições no Brasil e no exterior e esteve presente em diferentes momentos do circuito artístico brasileiro. Sua produção também integrou edições da Bienal de São Paulo, incluindo a de 1957. Obras suas encontram-se preservadas em importantes coleções, entre elas a do MASP. 

Ainda assim, sua trajetória acabou recebendo menos atenção do que a de outras mulheres ligadas ao modernismo brasileiro. Estudos recentes vêm procurando recuperar essa presença e compreender melhor a contribuição de Noêmia para a história da arte nacional.

Sua morte, em 21 de agosto de 1992, em São Paulo, marcou o fim de uma trajetória de oito décadas. Pouco depois, o espólio da artista foi levado a leilão, reunindo centenas de trabalhos e revelando a amplitude de sua produção, que abrangia pintura, desenho e escultura, entre outras linguagens. 

O legado de Noêmia Mourão

A importância de Noêmia Mourão está justamente na complexidade de sua trajetória. Ela foi uma artista brasileira que viveu intensamente as transformações culturais do século XX, transitando entre São Paulo e Paris, entre a pintura e o desenho, entre o teatro e a literatura, entre a representação feminina e a pesquisa sobre culturas indígenas.

Sua obra demonstra que delicadeza não é sinônimo de fragilidade. Pelo contrário: em suas figuras femininas, em seus desenhos e em suas escolhas cromáticas existe uma construção consciente de linguagem. A suavidade que marcou sua produção tornou-se uma das características pelas quais foi reconhecida, mas não deve ser utilizada para diminuir a dimensão intelectual e artística de seu trabalho.

Hoje, a redescoberta de Noêmia Mourão permite olhar novamente para a história do modernismo brasileiro e perceber que ela foi construída por muito mais nomes do que aqueles tradicionalmente lembrados. Sua trajetória merece ser compreendida não apenas como a de uma mulher que esteve próxima de grandes artistas, mas como a de uma criadora com percurso próprio, repertório internacional e produção multifacetada.

Ao lado de suas pinturas, desenhos, ilustrações e projetos cenográficos, permanece uma contribuição singular para a arte brasileira. Noêmia Mourão construiu, ao longo de décadas, uma obra capaz de unir a experiência cosmopolita de Paris à pesquisa sobre a cultura brasileira, mantendo como fio condutor uma profunda atenção à figura humana.

É justamente nessa capacidade de transitar entre mundos que reside a força de seu legado. Mais do que a “Marie Laurencin das Américas”, Noêmia Mourão pode ser compreendida hoje por aquilo que sua própria obra revela: uma artista brasileira de identidade visual singular, cuja produção continua oferecendo novas possibilidades de leitura para a história da arte do século XX. 

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