Nei Vital: entre o sertão e a metrópole, uma arte feita de memória, cor e identidade

0
12
Nei Vital

A arte de Nei Vital nasce do encontro entre dois universos que, à primeira vista, parecem distantes: o sertão nordestino e a grande metrópole paulista. Em sua produção, essas duas experiências não aparecem como opostos, mas como partes de uma mesma trajetória. O artista transforma lembranças da infância, personagens populares, festas, paisagens e histórias do Nordeste em imagens que também carregam o ritmo, a intensidade e a diversidade da vida urbana. É justamente dessa mistura que surge uma linguagem própria, marcada pela presença do cordel, da xilogravura, da pintura e por referências que atravessam a arte popular, a cultura de rua e a estética contemporânea. 

Nascido em Uauá, no sertão da Bahia, Nei Vital mudou-se ainda menino para São Paulo. A mudança de território representou muito mais do que uma transformação geográfica. De um lado estava a memória de uma infância vivida no interior baiano, cercada por paisagens sertanejas, pequenas cidades, festas tradicionais, familiares, vizinhos e histórias populares. Do outro, encontrava-se uma das maiores metrópoles do mundo, com sua arquitetura, seus contrastes, seus movimentos culturais e sua intensa produção artística. Ao longo de sua trajetória, essas duas realidades passaram a conviver dentro de suas obras. 

O resultado é uma produção que pode ser compreendida como uma espécie de ponte visual. Nei Vital não abandona suas raízes para falar sobre a cidade, nem rejeita a experiência urbana para retornar exclusivamente ao sertão. Ele reúne os dois mundos e cria uma arte em movimento, na qual a tradição nordestina encontra elementos associados à cultura contemporânea.

O encontro com a xilogravura

A xilogravura ocupa um lugar fundamental na trajetória de Nei Vital. Segundo registros sobre sua carreira, o artista teve seu primeiro contato com a técnica em 2010 e, a partir daquele momento, passou a desenvolver uma relação cada vez mais profunda com a linguagem da gravura. Sua produção foi posteriormente associada ao conceito de “Cordel Urbano”, expressão que sintetiza justamente o encontro entre a tradição do cordel nordestino e a experiência da metrópole paulista. 

A escolha da xilogravura possui um significado especial. Tradicionalmente associada à literatura de cordel, a técnica possui uma longa história no Nordeste brasileiro. A imagem gravada na madeira costuma acompanhar histórias, versos e personagens, funcionando como uma linguagem visual capaz de condensar narrativas inteiras em poucos elementos.

Nei Vital parte dessa tradição, mas não se limita a reproduzi-la. Seu trabalho incorpora outras referências e transforma a xilogravura em uma linguagem contemporânea. A estética descrita em materiais sobre sua produção combina elementos do cordel com influências da Pop Art e do graffiti, criando uma identidade visual que aproxima a cultura popular de manifestações presentes no ambiente urbano. 

Essa combinação é uma das características mais interessantes de seu trabalho. A xilogravura mantém sua relação com a madeira, com o entalhe e com a tradição, mas passa a dialogar com uma cidade marcada por muros, cartazes, grafites, publicidade e excesso de imagens.

O sertão que permanece na memória

Mesmo vivendo em São Paulo, o sertão continua sendo uma presença constante na produção do artista. Nei Vital afirma que desenha seu Nordeste e tudo aquilo que está relacionado a ele: a migração para o Sudeste, as festas típicas, as paisagens do sertão, as pequenas cidades onde viveu e os retratos de familiares, vizinhos e conhecidos. Mesmo quando a obra não representa diretamente uma paisagem nordestina, existe, segundo o próprio artista, um sertanejo presente nela. 

Essa declaração revela uma característica essencial de sua obra: o sertão não aparece apenas como cenário. Ele funciona como identidade, memória e experiência.

Nas imagens de Nei Vital, o Nordeste pode ser reconhecido por meio de personagens, costumes, gestos, festas e situações cotidianas. É um Nordeste que não se resume à seca ou à pobreza, frequentemente associados às representações mais tradicionais da região. O artista procura também recuperar sua beleza, suas cores, sua alegria e a força de sua população. Em entrevista ao Artbluum, ele destaca justamente o desejo de lembrar o sertão por sua beleza e por suas pessoas alegres, mesmo diante das dificuldades provocadas pela seca. 

Essa perspectiva dá à sua obra uma dimensão afetiva.

Não se trata apenas de representar um lugar que o artista conhece. Trata-se de preservar aquilo que esse lugar deixou dentro dele.

Memória como matéria-prima

O processo criativo de Nei Vital está profundamente ligado às lembranças. O próprio artista explica que muitas de suas obras surgem de cenas vividas durante a infância, situações que permaneceram gravadas em sua memória e que, em determinado momento, retornam para a tela. Outras imagens aparecem espontaneamente, como lembranças que encontram sozinhas o caminho para o desenho. 

Essa relação com a memória faz com que sua produção tenha uma dimensão quase autobiográfica.

Ao transformar uma lembrança em imagem, o artista não está simplesmente reproduzindo aquilo que aconteceu. Ele está reinterpretando a experiência. A memória modifica detalhes, seleciona momentos e atribui importância diferente às coisas. Uma paisagem pode ganhar cores mais intensas; uma personagem pode assumir uma presença maior; uma pequena cena cotidiana pode transformar-se no centro de uma composição.

A arte passa, assim, a funcionar como uma forma de preservar experiências que poderiam desaparecer com o tempo.

A cor como celebração

Embora a xilogravura seja tradicionalmente associada ao contraste entre áreas claras e escuras, Nei Vital também desenvolveu uma produção pictórica marcada pelo uso de cores vibrantes. Obras recentes apresentadas em registros de sua trajetória, como “Caldeirão da Serra BA” e “Vozinho”, realizadas em acrílica sobre tela em 2024, demonstram a permanência de suas referências sertanejas mesmo fora da gravura. 

A cor, nesse contexto, ajuda a construir uma visão particular do Nordeste. Em vez de enfatizar apenas a aridez, ela permite que a paisagem seja percebida como um lugar de energia e vitalidade.

O sertão de Nei Vital possui sol, festas, pessoas, encontros e movimento. Existe sofrimento, mas existe também alegria. Existe migração, mas existe igualmente pertencimento.

Essa complexidade impede que sua produção seja reduzida a uma representação estereotipada da região.

Entre J. Borges, Carybé e a cidade

Como acontece com muitos artistas, Nei Vital construiu sua linguagem a partir de diferentes referências. Entre os nomes que marcaram sua formação estão J. Borges, Heitor dos Prazeres, Carybé, Di Cavalcanti e Candido Portinari. O artista também afirma que sua influência não se limita aos grandes nomes da história da arte: exposições, intervenções urbanas, manifestações nas ruas e situações do cotidiano também alimentam sua percepção. 

Essa variedade ajuda a compreender a natureza híbrida de sua produção.

De J. Borges, é possível reconhecer a importância da tradição da xilogravura e do cordel. De Heitor dos Prazeres, aparece o interesse pela cultura popular e pelas cenas de convivência. Carybé contribui para uma visão profundamente ligada à cultura brasileira. Di Cavalcanti e Portinari representam outras possibilidades de interpretação da vida popular, das pessoas e do cotidiano.

Mas Nei Vital não simplesmente reproduz essas influências. Ele as mistura com aquilo que encontrou nas ruas de São Paulo.

É nessa mistura que surge o Cordel Urbano.

A Kombi que virou ateliê

Um dos episódios mais curiosos relacionados à trajetória de Nei Vital é a circulação de seu trabalho pelas ruas de São Paulo em uma Kombi, utilizada como espécie de ateliê itinerante. Registros publicados pela Mirabile Decor & Design relatam que o artista foi encontrado em 2015 no Beco do Batman, na Vila Madalena, tradicional ponto de encontro de artistas e grafiteiros, com uma Kombi carregada de xilogravuras e outros objetos artísticos. 

A imagem é quase uma síntese perfeita de sua proposta.

Uma Kombi atravessando São Paulo carregando xilogravuras inspiradas no sertão representa, simbolicamente, o deslocamento vivido pelo próprio artista. É a tradição viajando pela cidade.

É o Nordeste chegando à metrópole.

É a memória encontrando novos públicos.

Esse caráter itinerante também aproxima a obra de Nei Vital da ideia de arte acessível, capaz de encontrar o público fora dos espaços tradicionais de exposição.

O artista e a transmissão do conhecimento

A trajetória de Nei Vital não se limita à criação de obras. O artista também participa de atividades de formação e transmissão da técnica. Em 2025, por exemplo, aparece como responsável por uma oficina de xilogravura em Indaiatuba, na qual os participantes tiveram contato com a história da técnica no Nordeste, referências de mestres da gravura e as etapas práticas de criação, incluindo desenho, aplicação, entalhe e impressão. 

Esse aspecto é particularmente importante porque a xilogravura depende da continuidade de seus conhecimentos.

Ensinar uma técnica significa também preservar uma tradição.

Quando um artista compartilha o processo de criação de uma matriz, ele não transmite apenas uma habilidade manual. Transmite uma parte da história da cultura popular brasileira.

Uma arte que atravessa fronteiras

A produção de Nei Vital demonstra que tradição e contemporaneidade não precisam estar em conflito. Uma técnica tradicional pode dialogar com o graffiti. O cordel pode encontrar a Pop Art. A memória sertaneja pode ocupar as ruas de São Paulo. A madeira pode se transformar em uma linguagem contemporânea.

Essa capacidade de atravessar fronteiras é talvez a maior força de seu trabalho.

Sua arte não pede ao espectador que escolha entre o Nordeste e a cidade. Pelo contrário, mostra que os dois podem existir simultaneamente.

O sertanejo que migra para o Sudeste carrega consigo sua memória. O artista faz dessa memória uma linguagem.

E talvez seja justamente por isso que suas obras tenham uma dimensão tão humana. Elas falam de deslocamento, pertencimento, lembrança e transformação. Falam sobre aquilo que deixamos para trás e sobre aquilo que carregamos conosco.

O legado de Nei Vital

Nei Vital construiu uma trajetória singular ao transformar suas próprias experiências em matéria artística. Seu trabalho demonstra que a cultura popular não é algo preso ao passado. Ela pode continuar viva, reinventar-se e encontrar novas formas de expressão.

Na madeira entalhada, o artista preserva a tradição da xilogravura. Nas cores vibrantes de suas pinturas, recupera a alegria e a beleza do sertão. Nas referências urbanas, incorpora a experiência de São Paulo. Nas cenas de migração, retrata uma realidade que faz parte da história de milhões de brasileiros.

Seu Cordel Urbano é, portanto, mais do que um estilo. É uma maneira de contar a própria história.

Uma história que começa no sertão da Bahia, atravessa a infância, chega a São Paulo e encontra na arte um lugar onde todas essas experiências podem permanecer juntas.

Ao observar a obra de Nei Vital, percebe-se que cada personagem, cada paisagem e cada linha pode carregar uma lembrança. O artista transforma memória em imagem e imagem em permanência.

E talvez seja essa a grande potência de sua produção: mostrar que, mesmo quando alguém deixa fisicamente sua terra de origem, o lugar de onde veio continua vivendo dentro de suas histórias, de seus gestos e de sua arte. 

Nei Vital: entre o sertão e a metrópole, uma arte feita de memória, cor e identidade 1
Nei Vital