Jerônimo Francisco Soares: a madeira que guarda a memória do Nordeste

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Jeronimo Francisco Soares

Mestre da xilogravura popular brasileira, artista paraibano transformou histórias, personagens e símbolos do imaginário nordestino em imagens marcadas pelo rigor do entalhe e pela força da tradição

Há artistas cuja obra parece nascer diretamente da memória. Em vez de buscar seus temas apenas nos livros ou nos museus, eles encontram matéria para criar nas histórias contadas pela família, nas paisagens da infância, nas festas populares, nas personagens do cotidiano e nas tradições que atravessam gerações. Jerônimo Francisco Soares pertence a essa linhagem. Paraibano ligado profundamente à xilogravura e à cultura do cordel, ele construiu uma trajetória na qual madeira, tinta e papel se transformaram em instrumentos de preservação da memória brasileira.

Nascido em 1945, na Paraíba, Jerônimo Soares aparece em registros de arte como gravador e participa de uma trajetória que une a tradição nordestina da xilogravura ao circuito artístico brasileiro. O Catálogo das Artes, tendo o Itaú Cultural como fonte biográfica, registra sua participação em importantes exposições, entre elas o Salão Paulista de Arte Contemporânea, em 1976, e as mostras Xilogravura: do cordel à galeria, realizadas em João Pessoa e São Paulo na década de 1990. 

Sua importância, entretanto, não está somente nas exposições. Está principalmente na maneira como conseguiu levar uma linguagem tradicional para diferentes públicos sem abandonar suas raízes.

Uma arte aprendida desde a infância

A história de Jerônimo com a xilogravura está diretamente relacionada ao universo da literatura de cordel. Fontes dedicadas à sua trajetória registram que ele começou a trabalhar com a técnica ainda muito jovem, por volta dos 12 anos, produzindo ilustrações para os folhetos de cordel ligados a seu pai, o cordelista José Soares. 

Essa origem é fundamental para compreender sua produção.

O cordel tradicionalmente combina palavra e imagem. Os versos contam histórias de heróis, santos, acontecimentos extraordinários, romances, conflitos, lendas e episódios do cotidiano. A xilogravura, por sua vez, oferece uma imagem capaz de sintetizar visualmente aquela narrativa.

Para Jerônimo, portanto, a gravura não nasceu como uma atividade distante da vida cotidiana. Ela surgiu como parte de uma cultura na qual contar histórias também significava desenhá-las.

A madeira tornou-se uma espécie de página.

O artista entalha a superfície, retira aquilo que não deseja imprimir e preserva as áreas que receberão tinta. Quando a matriz é pressionada contra o papel, a imagem aparece como resultado desse processo de ausência e presença. O que foi retirado transforma-se em espaço; o que permaneceu na madeira transforma-se em desenho.

É uma técnica aparentemente simples, mas que exige enorme controle.

O Nordeste como inspiração permanente

Embora tenha construído sua carreira em São Paulo, Jerônimo nunca rompeu com o Nordeste. Pelo contrário: a região permanece como uma das principais fontes de inspiração de seu trabalho.

Em depoimento reproduzido pelo Diário do Grande ABC, o artista afirmou que sua inspiração era o Nordeste e que costumava retornar à região, trazendo novas referências para seus trabalhos. 

Essa relação ajuda a explicar a presença constante de personagens, paisagens e situações ligadas ao imaginário popular em sua produção.

Seu Nordeste não precisa ser compreendido apenas como representação geográfica. É também um Nordeste simbólico: aquele das histórias contadas oralmente, da religiosidade, do sertão, dos costumes, das festas, das dificuldades e da resistência.

A xilogravura permite que esse universo seja transformado em uma linguagem visual de forte identidade.

O artista que levou a xilogravura para São Paulo

A mudança para São Paulo representou uma nova etapa na trajetória de Jerônimo. Longe de abandonar a linguagem que aprendera na juventude, ele encontrou na capital paulista novos espaços para apresentar seu trabalho.

Durante muitos anos, esteve ligado à Praça da República, tradicional ponto de circulação de artistas e artesãos no centro de São Paulo. Segundo registros publicados pelo Diário do Grande ABC, Jerônimo passou cerca de 15 anos expondo e comercializando suas obras no local. 

A praça tornou-se uma espécie de galeria aberta.

Ali, sua arte encontrava um público extremamente diversificado: moradores da cidade, colecionadores, visitantes e turistas. Essa circulação contribuiu para que suas xilogravuras ultrapassassem as fronteiras do circuito exclusivamente especializado.

O curioso é que o contato direto com o público também ajudou a ampliar a circulação internacional de sua produção. Registros sobre o artista apontam que suas obras foram comercializadas e publicadas em livros na Suíça, França, Inglaterra, Estados Unidos e Japão. 

A madeira entalhada no Brasil encontrava, assim, espectadores em diferentes partes do mundo.

Uma técnica própria

Outro aspecto particularmente interessante da trajetória de Jerônimo Soares está em sua disposição para experimentar a própria técnica.

Fontes sobre sua produção destacam que o artista desenvolveu ferramentas e procedimentos próprios para realizar seus entalhes. Entre essas experiências está o uso de instrumentos semelhantes a agulhas para criar marcas e pontos na madeira, dando origem a uma característica visual bastante particular. 

Esse procedimento confere à superfície uma riqueza de detalhes que vai além das tradicionais áreas chapadas de preto e branco.

O artista também desenvolveu maneiras próprias de trabalhar a cor. Para realizar xilogravuras coloridas, utilizava diferentes partes da matriz, retirando ou separando áreas para evitar que as tintas se misturassem de maneira indesejada. Segundo relato publicado pelo Diário do Grande ABC, uma xilogravura tradicional podia levar aproximadamente um mês para ser concluída, enquanto as coloridas exigiam cerca de seis semanas. 

Essa informação revela algo importante: a aparência espontânea e popular da xilogravura esconde um processo extremamente trabalhoso.

Cada linha é resultado de uma decisão.

Cada área escura depende do entalhe.

Cada detalhe exige planejamento.

O sol como assinatura visual

Entre os elementos associados à linguagem de Jerônimo está também uma representação característica do sol, com chamas direcionadas para o centro, apontada em registros sobre sua obra como uma de suas marcas autorais. 

Esse tipo de elemento demonstra como artistas populares podem desenvolver verdadeiras assinaturas visuais.

Em uma tradição na qual muitos criadores compartilham temas e procedimentos semelhantes, encontrar uma maneira particular de representar determinado elemento é uma forma de construir identidade.

O sol, nesse contexto, pode ser compreendido não apenas como fenômeno natural, mas como símbolo. Ele pode sugerir calor, vida, passagem do tempo, resistência e a própria luminosidade característica das paisagens nordestinas.

A repetição de determinados elementos ao longo de uma produção também ajuda o público a reconhecer o artista.

Do cordel à galeria

Um dos capítulos mais importantes da trajetória de Jerônimo está justamente no trânsito entre espaços.

A xilogravura nasceu profundamente associada ao cordel e à cultura popular, mas, ao longo do século XX, passou a ocupar também galerias, museus, centros culturais e exposições de arte.

Jerônimo participou desse processo.

Sua presença no Salão Paulista de Arte Contemporânea de 1976 demonstra que sua produção já encontrava espaço dentro de uma instituição dedicada à discussão da arte contemporânea. Mais tarde, participou das exposições Xilogravura: do cordel à galeria, realizadas em 1993 e 1994, reforçando justamente essa passagem entre a tradição popular e os espaços institucionais. 

O próprio título dessas exposições é revelador.

A xilogravura não precisava deixar de ser popular para ser reconhecida como arte.

Ela poderia ocupar a galeria carregando consigo sua história.

Reconhecimento e permanência

A produção de Jerônimo também entrou em importantes coleções. O Diário do Grande ABC registrou, por exemplo, a presença de obras suas em acervos como o Museu de Arte Popular (MAP) e a Pinacoteca de São Bernardo, além de obras no ABC paulista. 

Em 2004, seu nome também aparece associado à exposição “Novas Aquisições: 1995–2003”, realizada pelo Museu de Arte Brasileira da FAAP, além da mostra Lambe-Lambe, do Atelier Piratininga. 

Sua carreira ainda alcançou o exterior. Em 1998, participou da Bienal de Gravura de Amadora, em Portugal, de acordo com registros publicados sobre sua trajetória. 

Em 2008, duas de suas xilogravuras — “Vida de Favela” e “Quero ver minha mãe” — foram selecionadas para uma exposição em Montreuil, na França, representando Diadema em uma mostra internacional. 

Esses episódios demonstram a amplitude alcançada por uma linguagem que nasceu vinculada aos folhetos de cordel.

Uma tradição que continua viva

A trajetória de Jerônimo Francisco Soares também levanta uma questão importante sobre a própria definição de arte popular.

Durante muito tempo, produções ligadas às tradições populares foram tratadas como manifestações menores em relação às chamadas belas-artes. A história da xilogravura brasileira ajudou a questionar essa divisão.

Jerônimo representa justamente essa capacidade de romper fronteiras.

Sua obra pode ser observada como documento cultural, como manifestação popular, como gravura e como produção artística contemporânea. Essas classificações não precisam competir entre si.

A riqueza está exatamente na coexistência delas.

Em suas mãos, a madeira deixa de ser simplesmente matéria-prima. Torna-se memória. O entalhe deixa de ser apenas uma técnica. Torna-se narrativa. O papel deixa de ser apenas suporte. Torna-se testemunho.

E o Nordeste deixa de ser somente um lugar representado: transforma-se em uma presença permanente.

O legado de Jerônimo Soares

A importância de Jerônimo Francisco Soares está na capacidade de transformar tradição em linguagem pessoal sem perder a conexão com suas origens.

Desde as primeiras experiências com o cordel até a circulação de suas obras em exposições brasileiras e internacionais, sua trajetória mostra como uma arte profundamente enraizada na cultura popular pode conquistar novos espaços.

Sua obra também lembra que inovação não significa necessariamente abandonar a tradição.

Às vezes, inovar é conhecer profundamente uma técnica e descobrir novas maneiras de utilizá-la.

É criar ferramentas próprias.

É experimentar cores.

É desenvolver um traço reconhecível.

É transformar uma história antiga em uma imagem que ainda consegue emocionar alguém décadas depois.

Jerônimo Soares fez exatamente isso.

Seu trabalho permanece como uma celebração da xilogravura nordestina e, ao mesmo tempo, como testemunho de sua capacidade de renovação. A cada matriz entalhada, o artista reafirma uma ideia simples e poderosa: as histórias populares merecem ser preservadas, reinventadas e vistas.

No encontro entre a madeira e a tinta, entre o cordel e a galeria, entre a Paraíba e São Paulo, Jerônimo construiu uma trajetória singular.

Uma trajetória em que a arte não se separa da vida.

E em que cada corte na madeira parece dizer que a memória, quando transformada em imagem, pode atravessar gerações.

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