Samson Flexor: o artista que ajudou a transformar a abstração em linguagem no Brasil

0
9
SAMSOR FLEXOR

Da experiência europeia à efervescência cultural de São Paulo, uma trajetória marcada pela geometria, pela espiritualidade, pelo gesto e por uma inquieta busca de renovação

Poucos artistas estrangeiros tiveram uma participação tão significativa na transformação da arte moderna brasileira quanto Samson Flexor. Nascido em 1907, em Soroca, na Moldávia, então parte do Império Russo, Flexor construiu uma trajetória internacional antes de se estabelecer definitivamente no Brasil. Pintor, desenhista, muralista e professor, atravessou diferentes linguagens ao longo da carreira: passou pela figuração, pela arte sacra, pelo cubismo, pelo abstracionismo geométrico e, posteriormente, por uma pintura cada vez mais livre, gestual e próxima da abstração lírica. 

Sua história é, portanto, a história de um artista que nunca aceitou permanecer preso a uma única fórmula. Ao contrário: Flexor parece ter transformado a própria mudança em método. Cada período de sua produção revela uma nova investigação sobre a relação entre forma, cor, luz, espiritualidade e existência.

E é justamente essa capacidade de transformação que faz com que sua obra continue despertando interesse décadas depois de sua morte.

Uma formação entre a química e a pintura

A trajetória artística de Flexor começou muito longe do Brasil. Ainda jovem, mudou-se para a Bélgica, onde estudou química e pintura na Academia Real de Belas-Artes. Em seguida, transferiu-se para Paris, centro fundamental da vanguarda artística europeia do século XX. Ali frequentou a École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, estudou História da Arte na Sorbonne e passou pelas academias La Grande Chaumière e Ranson. 

Essa formação múltipla ajuda a compreender a complexidade de seu trabalho. Flexor não enxergava a arte apenas como uma atividade manual ou decorativa. Sua produção nasceu do encontro entre conhecimento histórico, experimentação plástica, disciplina técnica e reflexão intelectual.

Em 1929, participou da fundação do Salon des Surindépendants, em Paris, movimento ligado à efervescente cena artística moderna da época. Sua experiência europeia o colocou em contato com diferentes tendências que posteriormente seriam reelaboradas em sua produção. 

A Europa também lhe apresentou os conflitos políticos e sociais que marcariam profundamente sua geração.

A guerra e a transformação do olhar

Durante a Segunda Guerra Mundial, Flexor participou da Resistência Francesa e precisou fugir de Paris diante da ocupação nazista. A experiência da guerra teve impacto importante em sua produção. As obras desse período adquiriram tons mais sombrios e passaram a apresentar relações com o expressionismo e o cubismo. 

Antes disso, sua pintura também havia se aproximado da arte religiosa. Depois de sua conversão ao catolicismo, em 1933, passou a dedicar atenção especial à pintura mural e à arte sacra. Esse interesse espiritual não desapareceria completamente quando o artista posteriormente se aproximasse da abstração.

Pelo contrário: a espiritualidade continuaria aparecendo como uma dimensão importante de sua relação com a pintura.

A abstração de Flexor não deve ser entendida simplesmente como abandono da realidade. Ela representava, muitas vezes, uma tentativa de encontrar uma realidade diferente daquela que poderia ser reproduzida por meio da figuração.

A chegada ao Brasil

Flexor teve seu primeiro contato com o Brasil em 1946 e estabeleceu-se definitivamente no país no final da década. São Paulo vivia naquele momento um intenso processo de modernização cultural. Museus de arte moderna estavam sendo criados, novas galerias surgiam e a cidade começava a assumir um papel central no cenário artístico nacional.

Foi nesse ambiente que Flexor encontrou espaço para desenvolver uma de suas maiores contribuições: a divulgação da arte abstrata.

Em 1951, fundou o Atelier-Abstração, espaço que funcionava em sua própria casa e que se tornou um importante núcleo de formação, discussão e experimentação artística. O ateliê reuniu artistas, intelectuais e interessados nas novas possibilidades da pintura não figurativa. 

Entre os artistas relacionados ao Atelier-Abstração estavam nomes como Anatol Wladyslaw, Jacques Douchez, Leyla Perrone, Norberto Nicola e Wega Nery. O espaço não era simplesmente uma escola tradicional: tornou-se também um ambiente de encontros, exposições, debates e intercâmbio cultural. 

A geometria como descoberta

Na década de 1950, Flexor tornou-se uma das figuras importantes da introdução e disseminação do abstracionismo no Brasil. Sua pesquisa aproximou-se da abstração geométrica em um momento em que São Paulo vivia uma acelerada transformação urbana e industrial.

Obras como “Formas superpostas”, de 1951, demonstram essa fase. A composição trabalha com formas geométricas, principalmente estruturas angulares e triangulares, organizadas em uma relação cuidadosamente equilibrada. O resultado é uma pintura que não depende da representação de pessoas, objetos ou paisagens para produzir significado. 

Outro exemplo é “Geométrico grande”, de 1954, pertencente ao acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. A obra demonstra o interesse do artista pela organização espacial e pelas possibilidades expressivas da geometria. 

Mas havia uma diferença importante entre Flexor e o movimento concretista brasileiro.

Embora dialogasse intensamente com a geometria, o artista não se identificava integralmente com o concretismo. Sua concepção de abstração era mais ampla e menos restrita à racionalidade geométrica. Essa posição o levou inclusive a estabelecer debates e divergências com representantes do concretismo paulista. 

Além da geometria

Talvez um dos maiores equívocos sobre Samson Flexor seja imaginar que sua obra se resume à abstração geométrica dos anos 1950.

O próprio percurso posterior do artista demonstra o contrário.

A partir do final da década de 1950, sua pintura começou a abandonar progressivamente a rigidez das formas estáticas. O gesto, a matéria, a transparência, a opacidade, o movimento e a luz ganharam importância crescente. O Museu de Arte Moderna de São Paulo destacou justamente essa transformação ao apresentar, em 2022, a exposição “Samson Flexor: além do moderno”, dedicada especialmente às fases menos conhecidas de sua produção. 

Essa mudança aproximou Flexor da abstração lírica ou informal, na qual a pintura se torna mais aberta à espontaneidade e à expressividade.

A linha deixa de ser apenas uma estrutura e passa a funcionar como gesto. A cor deixa de obedecer somente a uma organização geométrica e começa a adquirir maior autonomia. A superfície da tela se transforma em espaço de experimentação.

É como se o artista, depois de dominar a geometria, decidisse libertá-la.

Os inquietantes “Bípedes”

Nos últimos anos de sua vida, Flexor desenvolveu uma das séries mais intrigantes de sua produção: os chamados “Bípedes”, ou “pictantropos”.

Produzidas principalmente entre 1966 e 1969, essas figuras combinavam elementos abstratos e figurativos, criando seres estranhos, quase humanos e ao mesmo tempo profundamente distantes da representação tradicional do corpo. 

A série ganhou grande repercussão quando obras monumentais foram apresentadas na Bienal de São Paulo de 1967. O próprio Acervo do Estado de São Paulo preserva “Bípede”, de 1967, uma pintura a óleo sobre tela de grandes dimensões. 

Essas figuras podem provocar diferentes interpretações. Podem ser vistas como criaturas imaginárias, corpos fragmentados, seres cósmicos ou manifestações de uma angústia existencial.

O filósofo Vilém Flusser dedicou textos aos seres pictóricos tardios de Flexor, demonstrando o interesse intelectual que essa produção despertava. 

A força dessas obras está justamente na impossibilidade de uma interpretação única.

Um artista entre dois mundos

Flexor foi um artista entre mundos. Nasceu na Moldávia, formou-se artisticamente na Bélgica e na França, viveu as consequências da Segunda Guerra Mundial e encontrou no Brasil um ambiente fértil para sua maturidade artística.

Sua trajetória também atravessou diferentes concepções de arte. Foi figurativo e abstrato. Trabalhou com temas religiosos e, posteriormente, com formas geométricas. Depois, abandonou parte da rigidez geométrica para explorar o gesto e finalmente voltou a estabelecer relações com a figuração.

Essa capacidade de transitar entre linguagens é talvez uma das características mais interessantes de seu legado.

O Museu de Arte Moderna de São Paulo reconhece Flexor como um dos pioneiros da abstração no Brasil e ressalta tanto sua contribuição para a abstração geométrica quanto seu papel como mestre de uma nova geração de artistas. 

Um legado que continua sendo redescoberto

Samson Flexor morreu em São Paulo, em 1971, mas sua obra permanece presente em importantes coleções e instituições. O MAC USP, por exemplo, conserva obras suas e tem apresentado diferentes exposições e pesquisas relacionadas à sua produção. 

Seu legado, entretanto, não está apenas nas telas preservadas em museus. Está também nos artistas que passaram pelo Atelier-Abstração, nas discussões que ajudou a provocar e na própria consolidação da arte abstrata como uma linguagem fundamental no Brasil.

Flexor ajudou a demonstrar que a arte brasileira moderna não precisava escolher entre tradição e vanguarda. Era possível absorver experiências internacionais e, ao mesmo tempo, produzir uma linguagem própria dentro da realidade brasileira.

Mais do que um pioneiro da abstração, ele foi um artista da transformação.

Sua carreira parece construída sobre uma pergunta permanente: o que acontece quando uma imagem deixa de representar o mundo para tentar revelar aquilo que existe por trás dele?

A resposta mudou várias vezes ao longo de sua vida. Primeiro veio a figura, depois a geometria, a cor, a espiritualidade, o gesto, a matéria e, finalmente, aquelas criaturas enigmáticas que parecem habitar um território entre o humano e o imaginário.

É justamente por isso que Samson Flexor permanece tão atual.

Sua obra não oferece uma única maneira de olhar. Ela convida o espectador a acompanhar o artista em sua incessante busca por novas formas de compreender a existência.

Flexor não foi apenas um dos pioneiros da abstração no Brasil. Foi um artista que transformou a própria inquietação em linguagem — e fez da mudança uma das principais matérias de sua arte.

Samson Flexor: o artista que ajudou a transformar a abstração em linguagem no Brasil 1
SAMSON FLEXOR