Há obras que parecem abrir uma janela para um universo paralelo. Em vez de simplesmente reproduzir a realidade, elas transformam o cotidiano em narrativa, misturam personagens, símbolos, cores e situações improváveis e convidam o espectador a imaginar o que aconteceu antes e o que acontecerá depois. É nesse território de fantasia, cultura popular e teatralidade que se pode compreender a produção de Miriam Inêz da Silva, artista brasileira cuja trajetória ganhou importância especial dentro da arte figurativa e popular brasileira.
Nascida em Trindade, Goiás, em 1948, e falecida no Rio de Janeiro em 1996, Miriam construiu uma produção marcada pelo encontro entre referências do interior brasileiro e elementos da cultura urbana e de massa. Sua obra dialoga com festas religiosas, mitos, manifestações populares, música, teatro, cinema, histórias em quadrinhos e personagens conhecidos da cultura brasileira e internacional.
A obra apresentada como referência para esta matéria, datada de 1981, permite observar várias dessas características. Nela, a figura humana ocupa posição central. O personagem aparece vestido de maneira marcante, com chapéu amarelo, casaco vermelho, camisa verde e calças marrons. Ao seu redor, surgem elementos que parecem pertencer tanto ao mundo real quanto ao imaginário: um pássaro azul, uma grande forma roxa semelhante a uma cortina e um fundo construído por manchas e linhas azuis. O resultado é uma cena que parece ter sido retirada de um espetáculo, de uma história popular ou de um sonho.
A força de uma pintura aparentemente simples
Um dos aspectos mais interessantes da arte de Miriam é justamente sua capacidade de transformar a simplicidade em linguagem. À primeira vista, seus personagens podem parecer diretos, quase como figuras de uma narrativa infantil ou de uma ilustração popular. Entretanto, por trás dessa aparente simplicidade existe uma construção visual sofisticada.
A artista trabalhou com uma linguagem figurativa própria, na qual as personagens frequentemente aparecem inseridas em situações teatrais. Estudos sobre sua produção destacam justamente essa dimensão de espetáculo: molduras, cortinas, personagens e cenas cuidadosamente organizadas fazem com que suas pinturas pareçam palcos onde alguma história está prestes a acontecer.
Na obra de 1981, essa característica fica particularmente evidente. A grande forma roxa localizada à direita pode ser entendida visualmente como uma cortina. O personagem parece estar entrando ou saindo de cena, enquanto o pássaro azul acrescenta movimento e uma espécie de elemento mágico. Não é necessário saber exatamente quem é aquela figura para perceber que existe uma história acontecendo.
Esse é um dos grandes encantos da produção de Miriam: a pintura não entrega todas as respostas.
Cores que contam histórias
A cor possui papel fundamental nessa construção narrativa. O vermelho intenso do casaco contrasta com o verde da camisa, enquanto o amarelo do chapéu estabelece outro ponto de destaque. O azul, predominante na composição, envolve o personagem e cria uma atmosfera quase onírica.
Esse uso de cores fortes também aproxima a obra de determinadas tradições da arte popular e naïf, embora a produção de Miriam não possa ser reduzida simplesmente a uma classificação. Sua pintura combina espontaneidade aparente com escolhas compositivas conscientes.
A artista desenvolveu, especialmente a partir da década de 1970, uma produção em óleo sobre madeira e passou a incorporar elementos geométricos e formas que lembravam molduras e cortinas. Essas soluções contribuíam para transformar a superfície da pintura em uma espécie de palco.
A escolha da madeira como suporte também é significativa. Em vez de depender apenas da tela tradicional, Miriam explorou superfícies que reforçavam a materialidade de suas pinturas. Há uma relação interessante entre o acabamento artesanal, a narrativa popular e a sofisticação da composição.
Entre o interior e a cidade
A trajetória de Miriam foi marcada por uma ponte entre diferentes universos culturais. De um lado, aparecem referências ao Brasil rural, às festas, aos costumes, às tradições religiosas e às narrativas populares. De outro, sua obra incorpora elementos da cultura urbana e da sociedade de massa.
Essa combinação ajuda a explicar por que seus trabalhos podem parecer familiares e, ao mesmo tempo, estranhos. O espectador reconhece roupas, gestos, personagens e situações, mas eles aparecem reorganizados em uma realidade própria.
A própria pesquisa sobre sua obra destaca essa convivência entre a cultura popular brasileira e a cultura metropolitana, incluindo referências à música, ao teatro, ao cinema e às histórias em quadrinhos.
Essa característica aparece também em trabalhos de 1981. A artista produziu, por exemplo, obras relacionadas a figuras da cultura popular e da música, como “Rita Lee…”, realizada em óleo sobre madeira.
O personagem como protagonista
Na obra em questão, o homem representado não parece ser apenas uma pessoa retratada. Ele funciona como um personagem.
Sua postura, com as mãos apoiadas na cintura, transmite segurança e teatralidade. O chapéu amarelo cria uma silhueta imediatamente reconhecível. O casaco vermelho amplia sua presença e transforma sua roupa em elemento narrativo.
Ao lado dele, o pássaro azul parece desempenhar um papel simbólico. Pode representar liberdade, movimento, desejo ou simplesmente funcionar como contraponto poético à figura humana. A pintura não determina uma única interpretação — e justamente por isso permanece aberta.
A presença de elementos aparentemente desconectados é uma característica importante da linguagem de Miriam. Seus trabalhos podem apresentar cenas festivas, religiosas, familiares, teatrais ou cotidianas, mas frequentemente existe uma tensão escondida nos gestos e nas relações entre os personagens. Pesquisadores de sua obra observam que pequenos detalhes — um olhar, uma postura ou uma expressão — podem carregar humor, crítica e inconformismo.
Uma artista que merece ser redescoberta
Durante muito tempo, artistas associados à arte popular, mulheres artistas e produções consideradas fora dos principais cânones da história da arte receberam menos atenção institucional. A própria SP-Arte destacou como a historiografia tradicional deixou lacunas importantes em relação às artistas mulheres e aos artistas classificados como “populares”.
A trajetória de Miriam demonstra como essa divisão pode ser limitada. Sua produção consegue aproximar diferentes mundos: o erudito e o popular, o rural e o urbano, o cotidiano e o fantástico, o humor e a crítica.
Hoje, suas obras fazem parte de importantes coleções brasileiras. Trabalhos da artista integram acervos do MASP, MAC USP e Pinacoteca de São Paulo, além de terem participado de exposições nacionais e internacionais.
Esse reconhecimento ajuda a reposicionar Miriam dentro da história da arte brasileira.
Uma pintura que parece estar em movimento
Observar a obra de 1981 é perceber que seus elementos não estão simplesmente colocados sobre a superfície. Eles parecem participar de uma pequena encenação. O homem, o pássaro, a cortina e as manchas azuis criam um ambiente onde a realidade e a fantasia se encontram.
É justamente nessa mistura que está a força de Miriam Inêz da Silva.
Sua arte não exige do espectador conhecimentos prévios para funcionar. É possível simplesmente olhar e imaginar. Mas, quando se conhece sua trajetória, percebe-se que por trás das cores intensas, dos personagens curiosos e das cenas aparentemente ingênuas existe uma artista profundamente interessada na cultura brasileira e nas contradições da sociedade.
A obra de Miriam nos lembra que a arte popular não precisa ser simples no sentido de limitada. Ela pode ser complexa, crítica, teatral, divertida e profundamente simbólica. Pode contar histórias sem escrever uma única palavra.
E talvez seja essa a maior riqueza de sua pintura: transformar uma cena aparentemente cotidiana em um palco aberto à imaginação, onde cada personagem guarda um segredo e cada cor parece anunciar o começo de uma nova história.














